Este não é um blog de viagens, mas um blog de educação! Porém, o tema “educação” é tão amplo que, nele, achei que coubesse falar de viagens e dos inúmeros aprendizados que fazemos ao entrar em contato com culturas e modos de vida diferentes. Portanto, estou aqui, escrevendo diretamente de Nova Iorque. Mais do que querer dar uma de chique – algo que definitivamente não sou – ou de aparecer, queria relembrar aqueles velhos temas de redação escolar: “minhas férias”. Então, vou dar a esse texto justamente um caráter de partilha de experiências, o que, no fundo, no fundo, é uma das principais contribuições da educação para a formação do sujeito.

Você já ouviu aquela história de que se a humanidade consumisse o mesmo que um cidadão estadunidense médio consome, seriam necessários não sei mais quantos planetas Terra? Durante muito tempo, fui vítima de um reducionismo rasteiro (pleonasmo vicioso!), que colocava todo cidadão nascido nos Estados Unidos num mesmo balaio de gatos pardos – talvez até pela herança antipática de sucessivos governos, mais recentemente encarnada em George Bush: pessoas inconsequentes, belicosas, egoístas, consumistas, responsáveis pela imposição de toda a poderosa indústria cultural que cai pesada sobre nossos ombros.

Pra que consumir tanto? Pra que poluir tanto? Essas duas perguntas continuam sinceras para mim, mas a gente percebe que o buraco é mais embaixo, ou que há diversos buracos complexos que catalisam perspectivas diferentes de encarar a problemática do consumo e da geração de lixo, das coisas absolutamente descartáveis, como se, ao serem jogadas fora, não trouxessem problemas e sumissem em um passe de mágica. Se nada se cria, pois tudo se transforma, também é verdade que nada some, tudo se transforma. O problema é que, longe dos olhos, o coração não sente e esse “se transforma” muitas vezes se transforma em lixo a emporcalhar o planeta e a dividir espaço conosco. Estamos a falar de lixo comum, reciclável, eletrônico, cultural etc.

Não vou aqui ser hipócrita. Não posso, portanto, negar que consumir é bom. Eu pelo menos gosto. Aliás, é necessidade nossa. O ponto a que quero chegar é a constatação de que nossos desejos de consumo são tão vorazmente alimentados que às vezes acabamos ficando, para usar uma gíria de adolescentes e jovens, “sem noção”. Uma avalanche de estímulos associa determinados produtos a tantas aspirações humanas, à virilidade, à sensualidade, ao status, ao sentir-se moderno, in, que às vezes temos a impressão de que o ingresso automático para a felicidade está na compra de um sabonete! Essa avalanche soterra e, se a gente não conseguir colocar ao menos o nariz – e os olhos – para fora, dificilmente a gente vai ter condições de fazer aquela pergunta já colocada aqui em posts anteriores: “mas… pra que mesmo?”

Portanto, antes de condenar uma sociedade que vive quase exclusivamente em torno do consumo, como é o caso da nova iorquina, cabe dar uma ideia da loucura que é isso aqui!

No meu caso, um brasileiro de classe média, percebo que as coisas aqui são realmente baratas! Agora, para um sujeito de classe média americano (desculpem o colonialismo), comprar um notebook equivale a comprarmos, no Brasil, um liquidificador ou algo do gênero. Se você usar um liquidificador todos os dias e souber, depois de um ano, que existe um novo modelo que faz coisas mais incríveis do que o seu já fazia, qual é a tendência? Pelo preço, vale muito “a pena” trocar. Para onde vai toda a velharia (e, na velocidade das coisas, algo que tem um ano já pode ser chamado de velharia)?

Enfim, não quero aqui dar um tom conformista, dizendo que “não adianta, é assim mesmo”. Só quero dizer é que o ritmo de vida sem paradas para perguntas fundamentais faz com que a roda viva vire rolo compressor. As experiências desta viagem e desse texto me fizeram pensar que, olhando o outro, podemos formar uma imagem melhor de nós mesmos. Enfim, falar (e escrever) é fácil. Podemos falar “mas que sociedade inconsequente, sem preocupação com os destinos da humanidade. Absurdo”. Mas aí, se nos oferecessem computadores, IPODs, TV LCD, celular, câmeras fotográficas, filmadoras, roupas, móveis, automóveis, tudo a preço de banana, teríamos força suficiente para colocar o nariz (e os olhos) para fora da avalanche e nos perguntar “mas… pra que mesmo?”

Abraços. Cezar Tridapalli

Última pergunta: o que você acha do trailler desse filme?