Cena 1: um carro de luxo com um casal jovem – belo, sadio, de dentes perfeitos – para ao lado de outro carro que, pela propaganda, deve ser ainda mais luxuoso que o primeiro. E o rapagão é carcomido de inveja pelo novo automóvel ali ao seu lado, admira todo o suposto design superior, de linhas arrojadas e esportivas. De repente, o vidro se abre e, para seu espanto, a lady que estava ao seu lado aparece já no outro carro, que arranca com ela, risonha e sarcástica, indo embora com o novo parceiro, como se dissesse “ô, coitado, fazer o quê? Ele tem um carro melhor que o teu…” E o slogan diz que aquele automóvel é “para poucos e maus”.

Outra: dentre aquelas inúmeras propagandas impressas que nos chegam pelo correio (o físico, não o eletrônico), recebo a correspondência de um cartão de crédito. Além dos inúmeros plásticos e papéis – não reciclados – que apenas gerarão lixo, vem junto a simulação de uma aliança, dizendo que o cartão de crédito quer celebrar um casamento comigo!

Mais uma: ainda lembro – essa faz muito tempo – de uma peça publicitária de telefone celular que mostrava que o Castro Alves havia escrito “Navio Negreiro” super jovem, que um compositor tal havia composto tal sinfonia ultra jovem. De repente – não mais que de repente – aparece um Zé Mané supostamente descolado e uma frase que dizia mais ou menos assim: “fulano de tal tem 20 anos e não faz m… nenhuma. O celular faz pra ele”.

Sério: é pra rir ou pra chorar? É perverso ou é infantil? Quem disse que a infantilidade não pode ser perversa…

Então o carro é que consegue a mulher (que é venal); a inveja corre solta e a pessoa tem menos valor porque tem um carro “pior” (e olha que o carro do carinha já era ‘a máquina’), o cartão de crédito quer se casar comigo (?!) – e com mais milhões que receberam essa besteira, numa orgia mercantilista de dar inveja a Sodoma, e provavelmente, com os juros que os cartões cobram, esse casamento iria me escorchar; pra completar, o jovem não precisa mais produzir nada e o coitado do Castro Alves e do compositor não passaram de otários porque, se vivessem hoje, não iriam precisar pensar (afinal, pra alguns, pelo jeito, pensar dói e é sinônimo de algo inútil ou de esforço descomunal).

Campanha da Diesel diz que os modelos aí de cima já estão prontos para o aquecimento global.

Por isso, dei o título que dei pra esse post. Sem querer ser conservador, mas, cá pra nós, cada valorzinho sem vergonha, hein?

E tenho perguntas para as quais não tenho resposta: isso influencia pessoas? Por que esse tipo de publicidade vende?

Pra terminar, queria compartilhar com vocês dois pensamentos do polêmico publicitário italiano Oliviero Toscani:

“‘A publicidade vende felicidade’, repetem todos os grandes pensadores da comunicação (…) Quer dizer então que felicidade se vende? Ou se compra? A publicidade já está ficando rouca de tanto falar em felicidade, parece que não tem outra palavra na boca, enquanto a crise bate à porta de todo mundo e as populações começam a preocupar-se com o próprio futuro.”

“De tanto querer nos vender a felicidade, a publicidade acaba gerando legiões de frustrados. De tanto provocar desejos que derivam em decepção, a publicidade perde o objetivo e dá origem a deprimidos e delinquentes.”

As citações foram retiradas do livro A publicidade é um cadáver que nos sorri, do próprio Toscani.

Sei, é claro, que nem toda publicidade é assim, mas vamos começar por estas que são.

Enfim, dá pra citar inúmeros casos e vou até pedir tua ajuda pra isso, sugerindo outras pérolas da publicidade. Comece a observar e traga seus exemplos pra gente discutir em grupo!

Agora, se você está mesmo a fim de saber mais sobre uma visão de certo tipo de publicidade e, em especial, sobre a publicidade específica para crianças, não há como não assitir ao documentário abaixo, dividido em 5 partes: Criança, a alma do negócio. Você pode concordar ou discordar, mas acho difícil você sair indiferente.

Bem, é isso.

Aquele abraço (curioso pra saber o que você pensa).