Alguns anos atrás, quando eu ainda dava aulas de Língua Portuguesa, era comum alguém, ao saber disso, comentar que então deveria se cuidar pra não falar errado. E aí vinha, acompanhando, uma série de desculpas, de que era ruim de português, que não sabia falar etc. No entanto, estava ali falando, em português.

De onde veio essa mistificação que quer colocar na cabeça da gente que “o Português é uma das línguas mais difíceis que existem?” Talvez seja complicadinha pra quem é estrangeiro, mas aí todas são. Agora, que tipo de perversão foi capaz de colocar na cabeça do brasileiro que ele não sabe falar português? Que sádico se compraz com afirmações assim?

A língua, escrita ou falada, lida ou ouvida, tem, entre outras funções, essa incumbência super legal de tornar comum um conhecimento, uma ideia, uma informação, um sentimento, uma ideologia etc etc. Esse tornar comum nada mais é do que comunicar (comunicare = tornar comum), estabelecer relações de diálogo e de visões de mundo. Na verdade, se formos puxar teóricos da linguagem, esse post poderia ficar mais complexo, mas não é o que queremos aqui.

Por outro lado, e por causa dessas mistificações, a língua também é a representação de uma relação de poder. Quem foi educado dentro de um modelo linguístico mais próximo de uma variedade eleita como padrão (por quem?) acaba se achando superior a grupos que foram educados dentro de outras variedades linguísticas. Se alguém falar pra mim que não sabe gramática, eu vou responder que ele não sabe o que é gramática, mas que sabe usá-la, isso sabe. Porque a gramática de uma língua é um encadeamento de formas e funções que conferem uma lógica àquilo que se diz ou escreve. Se, ao tentar falar português, eu disser “difíceis língua falando saber nós não gramática”, aí realmente você pode me dizer que eu não sei gramática. Mas ninguém fala ou escreve assim! Agora, se eu disser “Nós não sabe as gramática do português”, eu posso afirmar, sem medo de errar: “há uma gramática presente aí”. Ou seja, há um encadeamento lógico que confere sentido ao que se quer dizer. Não é a Gramática eleita (por quem?) como padrão, mas, insisto, há uma gramática aí.

E, se alguém ficar horrorizado e afirmar que quem fala assim é ignorante, podemos até mostrar o exemplo de outras línguas. Nossa língua oficial diz que o verbo precisa concordar com o pronome. Portanto, eu sei, tu sabes, ele sabe, nós sabemos, vós sabeis (alguém usa isso?), eles sabem. Mas há outras lógicas, por exemplo, no inglês oficial: I know, you know, he knows, we know, you know, they know. Ou seja, o inglês tem como padrão uma espécie de “nós sabe” e ninguém dá risada disso. Se falamos “os carro são vermelho” – ou mesmo “os carro é vermelho” – em vez de “os carros são vermelhos”, é porque, na nossa gramática interna, o plural já está marcado no artigo “os” e não é necessário ser tão redundante colocando plural em tudo. Há lógica nisso, há uma gramática nisso! Os ingleses falam “the cars are red” (“o carros são vermelho”); os franceses, por sua vez, colocam os plurais na palavra escrita, mas jamais pronunciam o “s” que marca esse plural na palavra falada (e não é por “erro”): em “les voitures sont rouges”, todos os franceses, do mais humilde ao mais pós-doutor da Sorbonne, lerão “Le voatiurre son ruge”, sem “s” algum no final.

Concordo em gênero, número e grau que a língua “padrão” deve ser ensinada a todos. Mas língua é que nem roupa: cada ocasião pode exigir uma diferente. E é sem dúvida legal ensinar a língua padrão para as crianças todas, de qualquer classe social etc. Agora, vamos parar com esse papo de eu falo errado, tu não sabes falar (a não ser que tenhas menos de 2 anos), ela é ignorante, nós somos incultos, vós sois bestas quadradas, eles não sabem gramática. Todo mundo, a partir de uns dois anos de idade, já tem uma gramática internalizada dentro de si.

E se você ri de quem fala que vai molhar “as pranta”, cuidado, não me venha falar que vai à igreja que eu, se fosse tosco a esse ponto, poderia rir da tua cara! Se tínhamos, no latim, “ecclesia”, temos no francês, “église” e, no espanhol “iglesia”, por quais cargas d’água você foi colocar esse “r” na igreja? Não deveríamos, à moda de Cebolinha, falar “igleja”? Falar “igreja” não é o mesmo que falar que “as pranta estão escondendo as praca”?

Obviamente, as línguas mudam com o tempo, pois elas não são engessadas, mas sim determinadas pelo uso nosso de cada dia.

Vamos pensando sobre isso. Comente aí embaixo. Se achou legal, podemos falar mais disso nos próximos posts. Sei que esse tipo de questão é um prato cheio para polêmicas. Mas não estou fazendo nada mais do que falar disso com base na ciência que estuda as línguas humanas: a Linguística.

Abaixo, um pequeno exemplo da polêmica entre linguistas e mistificadores, a partir do livro Preconceito Linguístico, de Marcos Bagno.

Caso não tenha ficado claro: a língua padrão PRECISA ser ensinada na escola e o aluno DEVE sair do ensino fundamental bem equipado com essa modalidade de se expressar na nossa língua. Isso vai dar acesso ao universo imenso e rico da cultura letrada, além de tantos outros benefícios.

Aquele abraço.

Nilton Cezar Tridapalli