As paixões são sempre inofensivas?

Olha que coisa interessante diz o biólogo molecular François Jacob:

“Não é somente o interesse que leva os homens a se matarem. Também é o dogmatismo. Nada é tão perigoso quanto a certeza de ter razão. Nada causa tanta destruição quanto a obsessão de uma verdade considerada como absoluta. Todos os crimes da história são consequência de algum fanatismo. Todos os massacres foram realizados por virtude: em nome da religião verdadeira, do racionalismo legítimo, da política idônea, da ideologia justa; em suma, em nome do combate contra a verdade do outro…”

Sinceramente, acho que o post de hoje poderia acabar ali, depois do fechamento das aspas. Mas é que a gente vai pensando, pensando e fazendo umas associações que, de repente, nem parecem tão descabidas assim.

Ao ler o que disse esse biólogo-pensador francês, me lembrei de duas coisas:

1)- “Paixão” e “patologia” têm a mesma origem: legal a paixão, né? Ela geralmente faz a gente pensar em coisas boas, românticas, inofensivas… mas, aos poucos, a gente também pode ir associando a paixão a algo ardente, caloroso, em chamas. E não estou mais falando dos casais felizes das propagandas do dia dos namorados. Paixão deriva de pathos, que também foi gerar patologia, ou seja, doença. E diz respeito à obsessão pela verdade única, à ausência de elasticidade dos pontos de vista, o que gera… o fanatismo. Fanático é aquele que acredita tão fervorosa e apaixonadamente na verdade do seu ponto de vista que não tem clareza para perceber que a visão de mundo dele é apenas uma em muitas possíveis e que, conforme o local, o tempo, a classe social, a presença ou ausência de religião – entre outras tantas variáveis – as formas de ver as coisas do mundo tendem a mudar, a ser vistas de forma diversa. O mundo não fica mais interessante se multicolorido?

2)- “Para se conhecerem as coisas, há que lhes dar a volta. Dar-lhes a volta toda”: algo parecido com isso é o que o escritor português José Saramago diz no documentário brasileiro Janela da alma. Ele diz que sempre sentava em um mesmo lugar no teatro, admirando boquiaberto a beleza do palco. Um belo dia, ao acabar uma peça, ele teve a oportunidade de subir ao palco e olhá-lo de outro ponto de vista. Para sua surpresa, viu a boca de cena de trás, e constatou uma estrutura oca, cheia de pó e teia de aranha. Daí vem a bela frase dele. Se ele ficasse preso eternamente ao seu ponto de vista, a verdade sobre o palco não mudaria nunca. Isso não significa, evidentemente, que o palco passou de belo a feio – seria sair de um ponto de vista limitado e cair em outro! – mas ganhou novas dimensões de avaliação e se enriqueceu, flexível.

Falando de “arquitetura”: você prefere muros ou pontes?

Não tenho absolutamente nada contra convicções. Eu as tenho muitas e julgo isso importante. Mas o acolhimento dos argumentos que vão de encontro (e não ao encontro) a tais convicções precisa ter passagem garantida, entrada liberada. Atritando-as com as nossas convicções, podemos enriquecer nosso modo de ver o outro, o mundo, a vida.

Pelo menos essa é minha convicção. Se alguém tiver argumentos diferentes, quem sabe eu não as rearranje?

Aquele abraço.

Nilton Cezar Tridapalli