Não percebi o entardecer. Perdido por entre quilos de papeladas dos processos que cabiam a mim julgar, surpreendo-me com uma réstia de sol que entra furtivamente entre as frinchas da cortina. Era a luz. A luz e sua inseparável contradição: a sombra. Sentia-me um pouco tonto devido às centenas de páginas lidas ao longo do dia, às dúzias de cigarros apagados nas mesmas dúzias de copos de café. E luz e sombra ali pareciam, em sua linguagem muda, querer me dizer alguma coisa. Insistentes, eufóricas e impacientes, queriam me dizer alguma coisa. Mas perguntar? Seria inútil interrogá-las. Minhas mãos manuseavam os processos corriqueiros, mas a cada movimento, a luz e a sombra é que gritavam surdamente, agitadas. Eu passava então os olhos naquele amontoado de letras e palavras e frases, mas sem mais prestar-lhes atenção ao seu sentido. Elas foram, no entanto, dominando, invadindo e, aí sim, luz e sombra fizeram perder-me no tempo e eu recordei. É, recordei, assim, em princípio, intransitivamente. Galguei tempespaço e as letras e palavras e frases já não eram mais as dos processos que o juiz respeitável que eu era deveria julgar, decidindo os assimsins e os assimnãos dos homens. Eram, agora, letras e palavras e frases da época da minha juventude, estampadas nas folhas do meu último ano de escola. Eram letras literárias. E já vinham corporificadas em som, um som que ditava a melodia tão própria daquele meu professor de literatura, ainda tão jovem na época, em sua obsessiva relação com a leitura. Estará vivo ainda? Estará ainda lá na frente, sacerdote, no altar da sala de aula, a professar a sabedoria imortal dos livros? Subitamente, o susto. Sim! Sombra e luz. Escuridão e claridade. Obscuridade e clareza. Certa vez, lembro bem agora, ele estava lá, perdido em suas leituras, mãos gesticulantes (falaria ele se lhe prendessem as mãos?), ao mesmo tempo extrovertido e tímido, quando o sol penetrou o ambiente e iluminou o professor. A classe, encanto geral, não mais o escutava, mas sorria oblíqua e dissimuladamente de sua sombra gesticulosa projetada no verde quadro-negro. Agora, eram dois professores, presente e futuro, instalados na sala de aula. Na imagem real, o jovem, chapeuzinho grudado à cabeça, para esconder o cabelo carente de um corte, os óculos recém colocados, enquanto a sombra o revelava outro. Outra imagem de si mesmo. A sombra não mais mostrava a juventude: ela parecia profeta de um destino, parecia adivinhar futuros. O mesmo chapeuzinho com os mesmos óculos faziam surgir da luz e da sombra a imagem de um velho. Ou, de um velhinho, o que me parece mais simpático. E ambos, luz e sombra, liam, perdidos em si mesmos, enquanto não mais prestávamos a mínima atenção ao conteúdo de suas frases e letras e palavras. Quantos anos se passaram desde aquele instante até este, em que estou aqui metido nestes processos? Vinte? Vinte e um? Vinte e dois? Das obras que ele falava não poder morrer sem lê-las, quantas terei lido? Existem várias, é verdade, que me observam impassíveis nas pesadas filas da estante… E ele? Estará vivo? Estará lá, com seu chapeuzinho e seus óculos (com o grau aumentado), insistindo homericamente com suas letras e palavras e frases? Não há muito tempo para esses meus devaneios, mas uma incerta certeza parece brotar dentro de mim: o professor, hoje, deve ser, mesmo, a sua sombra projetada no quadro-negro.

Nilton Cezar Tridapalli