Curar um mundo ferido: um olhar para os animais não humanos

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Uma discussão ética instigante que está ganhando cada vez mais destaque é a relação estabelecida entre os humanos e os demais animais. A discussão na Europa é antiga, data de 1776. Desde a publicação do livro de Peter Singer, em 1975, Libertação Animal, o tema se tornou alvo de intenso debate em círculos sociais e acadêmicos. A questão apontada por Singer e outros teóricos seria que o cristianismo se tornou um dos grandes responsáveis pela maneira a-ética, cruel e exploradora com a qual sociedade ocidental estabeleceu relação com os animais. Ele conclui em sua obra que o cristianismo definitivamente exclui os demais animais do âmbito da compaixão.

Ainda, segundo Singer, a insensibilidade cristã aliada às formas de exploração do capitalismo contemporâneo fez da vida dos animais não humanos uma fonte de lucros altíssimos que são conseguidos com o suplício em massa de milhões de criaturas todos os dias. Além do segmento secular, a discussão surge também no mundo religioso. O teólogo Andrew Linzey se pergunta se não é hora de superarmos a noção que Deus sofre somente quando os humanos sofrem. Deus, segundo ele, sofre junto com a sua criação.

Este assunto é tão evidente que o Secretariado de Justiça Social e Ecologia da Companhia de Jesus, em seu relatório especial sobre a ecologia Curar um mundo ferido, embora não trate diretamente a questão dos animais, usa o conceito de criação. Ao empregar esta categoria teológica, afirma que “seguindo a indicação de Inácio que ‘o amor é expresso mais em atos que em palavras, oferecemos a nós mesmos generosamente para curar nossa relação com a criação” (p. 32). Diante desta reflexão, o documento, embora não toque diretamente nesta questão, abre caminho para  que surja uma nova forma de nos relacionarmos com a criação. Ainda na apresentação do documento, surge uma proposta repleta de vida e esperança para os animais não humanos: “Assim como somos chamados, como jesuítas, a promover e restabelecer relações justas com Deus (…) da mesma forma (…) somos chamados a restaurar e curar as relações rompidas com a criação” (p.7). O espírito do documento pede um comprometimento honesto (p.11) e insiste que o cuidado com o meio ambiente afeta nossa fé e nosso amor para com Deus, pois quem busca a paz deve proteger a criação. (p.14).

Mas, de todas as afirmações do documento, uma em especial pede uma mudança ética e mística profunda de todos nós: “O ver a Deus em todas as coisas nos chama a uma relação mística com toda a criação.” (p.16) Assim o documento abre possibilidades para que surja uma reflexão ousada que consiga olhar para os animais não humanos com um olhar convertido que traga mais vida, mais paz, mais dignidade para a criação.

Jerson Darif
By | 2018-02-27T13:34:52+00:00 agosto 27th, 2012|Consciência Planetária, n9|2 Comments