Roteiristas de Hollywood, atenção: chegou a hora de vocês conhecerem o roteiro que deixará Avatar a ver navios, ou, pra aproveitar o trocadilho, deixará Avatar a afundar junto com outros navios, e qualquer semelhança com o Titanic não será mera coincidência…

Há muito tempo, pensei num plot que daria um baita filme, a ser exibido nos Aiméx tresdê pelo mundo afora. Guardei o segredo a sete chaves, sonhando com o estouro das bilheterias.

Como acordei logo, vi que jamais escreveria esse roteiro; ele, portanto, jamais viraria filme e eu, desinflando o ego e voltando ao tamanho justo de minha insignificância… desisti. Por isso, deixo a história básica para que os criativos de Hollywood possam entrar em contato com esse que será – sem a mais mínima sombra de dúvida – o maior campeão de audiência ever! Eis minha ideia para o roteiro de um filme. Aproveitem, nem vou patentear, é de mão beijada e abençoada, é livre, it’s free:

(Usei a versão mitológica, mas fica a critério do roteirista optar pela versão evolucionista):

No início eram as trevas. E Deus, no primeiro dos dias, salpicou o mundo de interruptores e energia elétrica, e viu que aquilo era bom; depois, foi colocando monitores de LED, microtelas de IPODs, tecnologias de videoconferência, mensagens de vídeo, skype, MSN, Orkut, Facebook e Twitter, entre outras maravilhas do mundo natural e tudo mais que a criatividade Lhe facultava – e imagine você a criatividade de um Ser onipotente.

Depois de tudo isso criado, Ele viu que o mundo estava muito monótono. E, a partir de nanochips, naturalmente, nanoscópicos, colocou dentro da tela o Adão. Mas o Adão não tinha com quem teclar, não tinha pra quem mandar seus torpedos e suas fotos, não tinha com quem papear na sala de chat. Então, da costela pixelizada do Adão, Deus criou a Eva.

E assim caminharam as personas, caindo em tentações e em suas conexões, mordendo a Apple da discórdia e espalhando seus micro(soft)vírus para sistemas alhures. O homem primitivo foi criando coisas legais também, como quando inaugurou a Idade da Fibra Ótica Lascada. Um mundo de novas possibilidades. E durante séculos de séculos, homens e mulheres viveram assim, reproduzindo-se em seus avatares e espalhando-os pelo mundo, comunicando-se – assim como era no princípio – pelas mídias virtuais originais.

Só que um negócio chamado Ciência e outro chamado Tecnologia começaram a avançar freneticamente. Sites já faziam previsões alucinantes que abalavam a todos, estupefatos. Autores deixavam boquiabertos e incrédulos todas as personas ao fazerem previsões que maravilhavam e horrorizavam os moradores daquelas telas todas: um cientista anunciou, em rede (não discada) internacional: “em menos de 50 anos, o ser humano será capaz de encontrar outro ser humano… PESSOALMENTE!” Será o início da era real, carnal.

Assombro! Inúmeras discussões sobre as implicações éticas da Ciência e da Tecnologia ocorreram, mas nada parava o avanço da tecnociência…

Finalmente, chegou o dia em que as pré-visões deixaram de ser pré e se tornaram apenas visões… visões do real, da era da realidade real que acabava de chegar… sim, senhores e senhoras, esse dia chegou. Ainda que sob o espanto e a desconfiança da maioria… aconteceu… a humanidade abriu as janelas e portas – algumas USB – de suas telas e casas e conversou com outro ser… PESSOALMENTE.

Um pequeno passo para o homem, um grande passo para a humanidade.

Desde aquele momento, a tecnologia humana não parou mais de evoluir em ritmo tresloucado… pessoas já trocavam conversas diretamente, dizendo, maravilhadas, exclamativas: “nossa! Não precisamos mais usar microfones! Não precisamos mais de uma tela! Nosso contato não é mais mediado, mediato, midiático! Agora ele é direto! Imediato!”

Os jovens eram os mais afoitos e se criava um abismo geracional como jamais visto! Críticos diziam que essa tecnologia deixava os jovens imediatistas.

Não demorou muito para que as pessoas tocassem umas nas outras! É, é sério, começou com um aperto de mãos, estranhíssimo e que deixava a todos com cara de bobos no início. Depois, evoluiu para um abraço. Depois ainda, bem… E evoluiu mais e tanto.!.

As escolas inauguraram, para delírio de pais e pedagogos, salas de aula reais, cujo contato do professor com os alunos e dos alunos com alunos aumentou em muito o rendimento escolar. Escolas que contavam com essas salas especiais de contato real gozavam de prestígio incomum. Era sinal de status comunicar-se pessoalmente.

Claro, logo houve propagação de vírus reais, gripes e afins, mas as pessoas não queriam mais saber do mundo natural de telas e micro e tele fones. Abandonaram aquela natureza que julgavam grosseira (imagine você precisar de anteparos para encontrar outras pessoas, que coisa mais primitiva!) e estavam entregues, eu diria até viciadas, naquele mundo de artifícios criado pela ciência e pela tecnologia.

Agora que o Homem descobrira o contato direto, o que mais poderia inventar? Onde esse mundo irá parar? – pensavam os mais conservadores.

Bem, não vou teorizar a respeito do filme. Só faria uma única retificação em relação ao que disse no início:

Aproveitando essa nova tecnologia (que é wireless, é bom que se diga), achei melhor não fazer um filme para o cinema 3D, que é coisa ultrapassada. Poderíamos inaugurar uma nova arte, uma espécie de representação ao vivo disso tudo. Que acham? Será que emplacaria?

E você? O que acha que essa nova tecnologia será capaz de gerar?

Aquele abraço

Cezar Tridapalli