“A praça é do povo
como o céu é do condor”
(Castro Alves)

Quem acompanha nosso blog já percebeu que a gente busca um equilíbrio ao falar tanto do mundo digital e de suas implicações humanas quanto das coisas do mundo físico, concreto, “real”. Mas isso não quer dizer que estes mundos sejam distintos, independentes. Claro que não. Muitas vezes – e ousaria dizer quase todas as vezes (com tendência ainda a retirar o “quase”) –, levamos conosco para o mundo da internet e de seus muitos derivados (chats, redes sociais, buscas no Google etc etc) os valores que temos, sejam eles baseados no individualismo ou nas preocupações coletivas, na tessitura de conhecimento ou na boataria fofoqueira inconsequente, no esforço pela inclusão ou na intenção de excluir grupos.

Você conhece o termo agorafobia? Pois bem, essa expressão vem do termo grego ágora, que significa praça pública – na Grécia, praça principal, palco das grandes assembleias públicas. E fobia significa uma recusa advinda do medo. A agorafobia pode ser vista, no mundo das concretudes, nessa nossa tendência de evitar os lugares públicos por serem vistos como perigosos, espaços abertos para os diferentes tipos de pessoas.

A mania dos shoppings centers é talvez o grande símbolo disso. Lá se evita a rua, a praça (a não ser a de alimentação!).

E não é que a internet está mimetizando essa mania? Falo isso pelo seguinte: em São Paulo, a elite mais classe AAA acabou de lançar um site de relacionamento onde não entra nem AA plus gold diamond. Tem que ser AAA. O vídeo com os entrevistados é muito sintomático.

Ou seja, isso só reforça o quanto os valores humanos, de preocupação com um projeto coletivo de sociedade, continuam importantes, in(ter)dependentemente das mídias e tecnologias novas. Senão, o elitismo preconceituoso (pleonasmo vicioso?) continua e apenas migra do espaço físico para o espaço “virtual”. Quem quiser ficar meio boquiaberto, clica aquie vê o vídeo. Também já fiquei sabendo que existe uma comunidade onde só entra quem a própria comunidade acha bonito(a)… O preconceito não tem limites! Ontem ainda, o Vinícius, meu parceiro de blog, me disse que também já há um site que gira apenas em torno das marcas que cada consumidor usa. Formam-se comunidades de pessoas cuja identidade se forma a partir da identidade das marcas mais badaladas… Você conhece aquele poema do Drummond, “Eu, etiqueta”? Não? Escuta aí:

Eu, etiqueta”, de Drummond, na voz de… você vai saber de quem, né?

Pois é, há algo de podre também no reino da rede… mas, por favor, não vá colocar a culpa no meio em si. O que acontece é uma transferência de visão de mundo de um meio para outro. Para uma internet democrática, precisamos de uma sociedade democrática; para uma internet menos agorafóbica, precisamos de uma sociedade menos agorafóbica.

Reconhecer e conhecer o outro e saber de suas idiossincrasias, acredito, apenas amplia nossa maneira de ver o mundo. Já que estamos limitados ao nosso ponto de vista e não podemos viver todas as experiências do universo, o jeito é alargá-las. Por isso é que lemos ficção, por isso vamos ao cinema, por isso vamos ao teatro: para entrarmos em contato como jeitos diferentes de viver, de encarar problemas, de resolver conflitos. Por que não, além de aprender isso com a ficção, também aprender isso com a realidade?

Se o preconceito não tem limites, precisamos mostrar que a inclusão e o projeto coletivo também não. Caso contrário, teremos apenas mais exclusões, ao quadrado, em “ambas” as vidas, física e digital.

“A praça Castro Alves é do povo

Como o céu é do avião

(…)

Deixa o povo na praça

E manda a gente sem graça

Pro salão”

(Caetano Veloso)

Um abraço.

Cezar Tridapalli