[Olhe por cima do muro]

Às vezes, quando alguém diz que está “em cima do muro”, quer dizer que prefere não tomar partido. Ou porque é indeciso, ou porque é omisso, ou porque é cético em relação às escolhas possíveis.

O cara que é “em cima do muro” muitas vezes é visto com impaciência pelos demais, que enxergam na atitude justamente a falta de atitude, a apatia, a falta de opinião, a falta do tal posicionamento.

Como tenho uma tendência muito grande a ficar em cima do muro, vou tentar fazer uma defesa desse tipo de comportamento. Primeiro, o argumento que diz que o cara em cima do muro não se posiciona já é uma contradição linguística e geográfica. Se acabamos de dizer que fulano está em cima do muro, como afirmar que ele não está em lugar nenhum? Ficar em cima do muro é, óbvio e portanto, um posicionamento.

Outro problema é que aparentemente o sujeito que não escolhe nenhum lado do muro é visto como indeciso por não saber escolher entre uma coisa ou outra. Aí que entra um negócio importante e que me faz vestir a carapuça da criatura em cima do muro: se, para eu me decidir, eu tenho que optar por um lado e abandonar completamente o outro, prefiro ficar no meio, em cima, olhando para os dois lados. Alguns fundamentalismos têm origem na tomada – voluntária ou não – de partido e, aproveitando a metáfora do muro, isso torna a pessoa que desceu dele cega ao lado de lá. Ela cravou os dois pés em um tipo de posição e, ao olhar para o outro lado, só vê muro. A ojeriza ao lado não escolhido é alimentada muitas vezes pelo próprio imaginário e pelas palavras das pessoas que escolheram o mesmo lado. Xinga-se o lado de lá sem conseguir vê-lo, muito menos compreendê-lo.

Manter-se em cima do muro – e dependendo da altura do muro – nos permite estar com um pé em cada lado, e isso desobriga de escolher uma posição em detrimento completo da outra. Em vez de indeciso, o indivíduo decide pelo diálogo, decide, como diz o outro, por “ambos os dois”. Desse modo, no lugar de uma coisa ou outra, ele fica com uma coisa e outra, ao mesmo tempo em que não aceita cegamente nem só uma coisa nem só outra (!). Olha para os lados, compara, coteja, recolhe, rejeita etc. Quem fica em cima do muro tem a possibilidade de ver um horizonte mais amplo (dá pra olhar o horizonte dos dois lados), mais informado. O ponto de vista, ou a vista do ponto, se amplia.

[o grafite acima é do Banksy]

É claro que eu tive a intenção de brincar um pouco com a ideia. Evidente também que essa brincadeira acabou muito esquemática, como se só houvesse dois lados de questões complexas ou como se em muitos casos a gente não tivesse a obrigação ética de decidir bem decidido por uma opção. Mas escrevi tentando ser solidário àqueles que, como eu, quando se deparam com a necessidade de escolher entre uma opção ou outra, não conseguem escolher rapidamente e correm o risco de, se o fizerem, acabarem fazendo uma besteira.

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Quando os slogans que pululam a todo o instante celebram a globalização com o argumento de que as distâncias se reduziram, e que é muito fácil viajar até a China ou conversar com alguém na Austrália, tenho tendência a concordar. O espaço se dissolveu. É tudo a um clique de distância, ou a poucas horas de viagem. E o planeta, aquela coisa outrora gigante, se transforma num cercadinho ao “alcance de todos”.

Mas até agora não vi ninguém celebrar o fato de que, para atravessar sua própria cidade de carro, leva mais tempo do que ir de avião a um lugar que está a 600 quilômetros.

Aí o motociclista xinga o motorista e vice-versa, ambos xingam os semáforos dessincronizados (ah, nesse xingamento eu me incluo). O motorista solitário do carrão largo que atravanca tudo xinga o cara do carro popular, sob o argumento de que a culpa é do pobre que agora pode até comprar carro. Em suma, todos se xingam, sem espelhos para olharem para si mesmos (ah, claro, algum motoqueiro deve ter arrancado o espelho!).

Ou sem um muro pra subir e olhar outros lados.

Enquanto isso, as políticas de transporte público e a construção de ciclovias com o consequente incentivo ao uso da magrela ficam esperando o trem. Que     já     vem, que    já    vem, que   já   vem, que  já  vem, que já vem quejávemquejávemquejávem…

Abraço.

Cezar Tridapalli