Há coisas realmente curiosas nessa vida (nenhuma novidade). Mas o que os olhos não veem o coração não sente (hmmm, lá vem clichê).

Vou tentar mostrar por que as duas frases acima, tão banais, me fizeram pensar além do óbvio durante essas férias.

Eu era um adolescente que curtia o Ira!, aquela banda paulista que fez bastante sucesso a partir da metade dos anos 1980. Inconscientemente, eu cantava feito louco várias das suas canções, entre as quais uma cujo título era “Pobre Paulista”. Entre outras coisas, a letra dizia: “Não quero ver mais essa gente feia/Não quero ver mais os ignorantes/Eu quero ver gente da minha terra/Eu quero ver gente do meu sangue”. Muitos anos depois, eu fui me tocar do que eu cantava e senti certa consternação. Parecia um hino a uma pretensa raça pura, de mesmo sangue, diferente de uma horda de pobretões que migrava para a cidade mais pujante do Brasil. Os compositores negam a intenção. Mas, de qualquer forma, foi instaurada a polêmica.

Anos depois, veio uma onda de notícias supondo que Curitiba era uma das três melhores cidades do mundo para se viver, que era uma Europa brasileira e outras bobagens quejandas. Pouco tempo depois, em confronto com a triste realidade do transporte público, com saneamento insano, com a violência desenfreada, com falta disso e daquilo, começaram a espocar comentários dizendo que os responsáveis por uma Curitiba depauperada eram, sempre eles, essa horda de pobretões que migrava para a cidade mais europeia do Brasil.

Muito tempo depois, 2011, com a globalização já instalada, aproveito parte das minhas férias para revisitar a capital italiana. Constatei que ela continua caótica, bagunçada, adorável. Mas, já na chegada, quase não reconheci a praça em frente à Stazione Termini, lugar de chegada e partida dos trens que vêm de todos os lados. Na praça, em reforma – adivinhe –, uma horda de pobretões que migrou de vários países, sobretudo do Marrocos, da Albânia, da Romênia, da China, da Índia, de Bangladesh, das Filipinas, do Brasil etc. A Roma pra turista ver é de fato fascinante, mas é meio impossível – desejável? – fechar os olhos para todo aquele povo e, entre as várias pichações na cidade, ler, por exemplo, “Romenos, vão embora”.

Sabe qual é a triste ironia da coisa e que me chamou a atenção a ponto de escrever esse post? Há uma direita forte na Itália, em prol da defesa de uma suposta identidade italiana verdadeira, além de uma população desorganizada, mas que reflete muito essa sensação de que o país está tomado por – lá vamos nós, de novo – uma horda de pobretões que migrou pra cá pra encher o nosso saco e fazer xixi nas nossas praças.

Só que – e aí vem a ironia – do lado de dentro da Stazione Termini, que é um luxo só, há uma loja da Nike super chique, com materiais esportivos de todas as cores e tipos e estampas. Cheia de gente. Por curiosidade, vou conferir, já sabendo o que encontraria: nas etiquetas dos produtos que encantam o mundo, vê-se uma horda de Made in China, Made in Filipinas, Made in Bangladesh, Made in Taiwan, Made in Vietnan, Indonésia etc.

Os olhos veem Roma e seus imigrantes empobrecidos (para ver um mapa mais completo da imigração pelo mundo, clique aqui). Isso fere muita gente. Mas não sabemos direito sob que condições os produtos feitos nesses países empobrecidos são produzidos. É como se a pichação que manda embora esses povos estivesse incompleta. Poderiam dizer: “pessoas, vão embora, vão para seus países produzir – não interessa em que condição – esses produtos que tanto adoramos. Queremos seus produtos, não vocês”. “Bengaleses, vão embora… mas mandem seus produtos pra gente”.

Mesmo assim, eu ainda comprei uma mochila.

Um abraço constrangido.

Cezar Tridapalli.

OBS 1: em que pese o aparente exagero, vale a pena conferir a abertura de Os Simpsons feita pelo Banksy, aquele artista britânico, sobre quem você pode saber mais clicando aqui:

OBS 2: a letra de “Estamos adorando Tóquio”, da banda Karnak, fala um pouco disso que discutimos acima:

Estamos adorando Tóquio

(…) Passa passa o passaporto, alfândega
Passa passa o passaporto, aduana

No me gusta lo gusto da dor
No me gusta los hombres do mal
No me gusta la pobreza del pueblo

(…)

Tu é peruano entrou pelo cano
Cadê a muamba não pode passar
Tu é iuguslavo não tem um centavo
E ainda quer visto para o Canadá
As águas é que são felizes
Não tem que ter visto para entrar no país
Porque fui nascer na Romênia
Se o meu grande amor ainda vive em Paris?