Mais tempo em casa criou uma pressão para ser mais produtivo do que o normal, mas saiba que isso pode causar ansiedade e sofrimento

Glossário de emoções: produtividade

Desde que o isolamento social virou uma realidade para grande parte da população brasileira, várias dicas para passar o tempo começaram a aparecer na internet: “Teste novos pratos, aprenda outro idioma, faça um curso ou aquela especialização que você estava adiando. Que tal aprender a tricotar? Leia os livros encostados, ouça podcasts, limpe a casa, hidrate os cabelos, separe roupas para doar. E não esqueça de fazer exercícios físicos e postar tudo isso nas redes sociais”! Ufa, cansa só de pensar!

Por mais que as intenções sejam boas, tais atitudes nos fazem pensar que é possível ser produtivo e eficiente 100% do tempo. E isso não é verdade, ainda mais quando estamos no meio de uma pandemia.

“Diante de cenários como esse, precisamos tomar muito cuidado, pois tanta autoexigência pode provocar sofrimento e trazer prejuízos para nossa própria saúde mental, além de desencadear outros problemas, como pensamentos autodestrutivos e quadros de ansiedade e depressão”, explica a psicóloga Karolina Vargas, do Centro de Inclusão do Colégio Medianeira.

Antecipação do sofrimento

Para Carlos Torra, orientador de Aprendizagem da 1ª Série do Medianeira, a pressão pela produtividade parece ser consequência de um equívoco comum hoje em dia: tornar essencial para nossa existência aquilo que é somente urgente, imediato.

“Se a ansiedade, em síntese, é a antecipação do sofrimento daquilo que não conseguimos depurar internamente, isso se deve, por vezes, a nossa insistência em separar os valores espirituais dos materiais; o prazer do aprender; o prazer de ser livre; a satisfação de uma conquista profissional da consequência financeira (ou não) dessa conquista; do esforço do seu valor produtivo da produção do sentido da própria existência”, afirma.

Para minimizar essa angústia, o professor acredita que devemos tentar dar sentido à nossa existência recolocando o que é importante no seu devido lugar. “Somos produtivos também quando damos sentido para as coisas que não são urgentes e mensuráveis, pois existimos quando amamos, quando sentimos, quando desejamos, quando refletimos, quando sofremos e conquistamos. Quando produzimos sentido ao fazer o que fazemos, vivenciamos a espiritualidade e diminuímos a ansiedade de ser quem somos e de fazer o que fazemos”, orienta Carlos.

Criando boas memórias

Caren Adur é pedagoga e mãe do Henrique Helpa, do 7º ano do Colégio. Ela conta que, no início do período de isolamento, tinha a expectativa de que teria tempo livre para fazer o

que não conseguia antes. Porém, o desejo não se concretizou por causa do trabalho remoto e das atividades escolares das crianças.

“Entendi que acelerar ainda mais a rotina seria prejudicial a todos nós e, assim, buscamos ´sentir o tempo´ e fazer o que é possível como, por exemplo, ler um livro, cuidar do jardim, fazer um curso on-line, preparar um bolo, assistir filmes ou fazer pesquisas sobre assuntos que conversamos”, expõe a pedagoga.

Com relação aos filhos, Caren declara que procura amenizar a falta da rotina da escola, dos amigos e dos professores separando alguns períodos para o estudo e outros para que desfrutem sozinhos, entre eles ou com a família toda.

“Nas primeiras semanas, quando de um dia para o outro passamos a estar em casa o tempo todo, foi mais difícil e buscávamos sempre coisas para fazer. Depois fomos nos organizando com a retomada das atividades de cada um e agora estamos tentando criar boas memórias desse momento tão desafiador”.

A importância de definir necessidades

Karolina concorda com Caren. Ninguém dá conta de tudo e isso nem é necessário. Para amenizar a angústia, a psicóloga dá mais algumas dicas:

– Primeiro identifique o que são suas demandas, o que de fato é necessário ser realizado. Muitas vezes a dinâmica da casa, as rotinas e o excesso de estímulos, nos atravessam e não conseguimos cumprir o que de fato é necessário. Sendo assim, estabeleça horários e espaços específicos para realizar o que considera necessidade.

– Caso não consiga, reavalie, será mesmo uma necessidade? Quais são as outras possibilidades de cumpri-la? Além disso, busque fazer coisas que você goste, organize momentos para isso e, principalmente, desarticule as demandas externas e dos outros das suas próprias. Depois reflita e veja o que de fato são necessidades suas.

Este texto faz parte do nosso Glossário de Emoções, compilado de conteúdos sobre sentimentos que têm feito parte do dia a dia de pais e estudantes durante a pandemia. Acompanhe as próximas postagens e compartilhe com a gente outras sensações que você tem vivido – e sobre as quais gostaria de ler mais