Em época de vestibulares e de ENEMs, e antes de explicar o título desse post, queria começar com algumas perguntas.

No trânsito, diante do sinal vermelho, você:

a)- para porque respeita a ordem e a segurança sua e dos outros motoristas, pedestres, ciclistas etc

b)- para porque tem medo de ser visto e multado

c)- olha pros dois lados, vê se não há polícia nem movimento e passa

d)- Outras alternativas? Quais?

Quando você está em um espaço público com um pacote na mão, ou uma garrafinha d’água ou qualquer outro resíduo que não tem mais serventia pra você, você:

a)- guarda esses resíduos na mochila, no bolso ou mesmo segura na mão porque tem vergonha de jogar no chão, ser visto por outras pessoas e passar por porquinho

b)- guarda tudo porque simplesmente não acha justo sujar um espaço que é de todo mundo

c)- só joga no chão se não tiver ninguém olhando

d)- não vai ficar carregando coisas na mão ou no bolso e joga num cantinho, afinal o espaço não é de ninguém e não há nenhuma multa pra isso

e)- Outras alternativas? Quais?

Quando você está fazendo prova e o professor precisa dar uma saidinha de emergência pra ir ao banheiro, você:

a)- continua fazendo a prova normalmente, já que o professor confiou em você

b)- tem a chance de fazer um trabalho em grupo e dar aquela consultada ao colega. Afinal, não é legal ser solidário?

c)- Outras alternativas? Quais?

Quando alguém te propõe um teste de múltipla escolha sobre comportamento, você:

a)- prevê quais são as respostas mais politicamente corretas e as marca

b)- aproveita que está respondendo só pra você mesmo e pensa seriamente sobre as respostas

c)- mistura um pouco das duas alternativas acima: se alguém que você respeita estiver junto contigo, vai ter vergonha de responder com total sinceridade

d)- Outras alternativas? Quais?

Bem, é claro que as perguntas acima têm suas respostas politicamente corretas, que podem ou não bater com o jeito nosso de agir no dia-a-dia. Mas, em meio às alternativas, há um fator crucial que perpassa as questões: nós somos os mesmo quando estamos sozinhos e quando estamos diante da figura do outro?

Nós somos os mesmos quando não há algum tipo de punição por determinado comportamento e quando sabemos que seremos punidos por nos portarmos contra algumas regras sociais?

Quem somos nós e qual o papel do outro, da sanção e do contrato coletivo na construção de nossa identidade?

Quem nunca se admirou com a civilidade da maioria dos cidadãos europeus, que para seus carros quando um pedestre põe o pé na rua para atravessá-la? No entanto, você sabia que há multas pesadíssimas pra quem não dá preferência ao pedestre?

Aí é que eu chego ao título desse post: “Gol de mão”. Acho que todo mundo já sabe, mas, pra quem não sabe, vou contar rapidinho (quem conhece a história do gol que nasceu da jogada de Thierry Henry já pode ir pro próximo parágrafo): a França, alguns dias atrás, estava jogando contra a Irlanda uma partida de futebol decisiva, que valia uma vaga para a Copa do Mundo de 2010. A seleção francesa jogava por um empate na prorrogação, mas estava perdendo o jogo. No finalzinho, o atacante francês recebeu uma bola e não só dominou-a com o braço, mas ainda deu uma ajeitadinha com a mão, o que lhe permitiu dar um passe perfeito para o gol de Gallas. Esse gol, escancaradamente irregular, garantiu a França no mundial da África do Sul.

Já conseguiu perceber onde quero chegar com as questões de múltipla escolha e com o gol da França? Se o jogador fosse comandado apenas por seu senso ético, independente da presença do outro ou da possível punição (anulação do gol e mesmo um cartão amarelo), caberia a ele parar a jogada e falar: “seu juiz, não valeu!” Alguém já viu isso acontecer? O que alguns fanáticos torcedores franceses poderiam dizer? A indignação mundial e principalmente irlandesa foi enorme, e nem poderia ser diferente. Será que um jogador irlandês, em situação semelhante, pararia a jogada?

Ética envolve três palavras muito legais: companheirismo, confiança e convivência. Ser companheiro é “dividir o pão” (do latim, cum panis); confiar é “fiar com”, trabalhar com o outro de modo colaborativo; e conviver é “viver com”, não viver só para o interesse próprio, mas viver tendo em vista a presença do outro, das vontades e interesse desse outro.

Por essas e outras que a pelada do fim de semana, sem juiz, é (ou deveria ser) um exercício de cidadania, um microcosmo no qual se estabelecem relações de confiança, convivência e companheirismo. Quando essa relação é cortada (por uma trapaça nas regras, por exemplo), podemos dizer que há violência, que vai muito além da violência física.

Thierry Henry se diz arrependido; na hora, porém, não se envergonhou da presença dos outros (milhões de outros) e se aproveitou do fato de que os responsáveis pela aplicação das regras coletivas não viram o lance. Dependia única e exclusivamente dele dar sequência à jogada ou pará-la.

Olhando pra dentro de você, confessando apenas à sua própria consciência, o que você faria no lugar dele?

Não, não precisa tornar pública a sua resposta, mas se quiser fazer isso, manda ver aí no espaço dos comentários.

Aquele abraço.

Nilton Cezar Tridapalli