No dia 23 de julho, o jornal Gazeta do Povo publicou em seu caderno “G Ideias” uma longa matéria intitulada “A literatura engessada”, assinada por Luís Henrique Pellanda. Na reportagem, foram entrevistadas várias pessoas, entre as quais este que vos escreve. A entrevista foi longa, mas como a matéria, claro, precisava ouvir mais gente, apenas uma pequena parte do que eu disse foi publicada. Por isso, como é meu dia de escrever no blog (sim, temos uma escala rígida e que funciona!), achei legal publicar aqui neste espaço um trecho maior dessa entrevista, na qual falei do projeto Sujeitos Leitores e de outros assuntos, todos relacionados à leitura.

Foram 8 perguntas, das quais coloco 5, já editando-as um pouco para não ficar enorme e/ou tediosa.

Grande abraço!

Cezar Tridapalli

  • G Ideias: Sobre o seu projeto Sujeito Leitor, a iniciativa foi de quem? A ideia era aproximar não só os alunos, mas também os professores, da literatura? Você pode resumir (sei que é difícil) um pouco a ideia do projeto, falar sobre ele? E que resultados você tem colhido dentro do colégio?

Não quero ficar fazendo propaganda gratuita da instituição, mas não há como esconder o fato de que o Colégio Medianeira sempre se preocupou em formar alunos leitores e pesquisadores. É uma preocupação seriíssima. O “Sujeitos Leitores” foi um projeto que eu ajudei a escrever em 2003 e tentava pensar a leitura como algo que não ficasse encaixotado nas aulas de Língua Portuguesa. Você precisa ler com competência para conseguir transitar pelas linguagens das várias ciências. A própria literatura não fica apenas falando de si mesma. Ela dialoga com o mundo. Literatura, leitura e as diversas outras ciências e facetas da realidade têm uma relação muito íntima. Então, imagine: em 2003 escrevemos esse projeto, mas nem sonhávamos em ter um setor de Midiaeducação, algo que agora temos. Nesse ano de 2011, quando toda a escola está reavaliando o projeto e ressignificando a leitura na escola, a Midiaeducação pensou: hei, agora temos mais condições de contribuir via novas mídias, novas tecnologias. Queremos usar as novas mídias para, entre outras coisas, ajudar as pessoas a se encontrarem com uma das mídias mais antigas que conhecemos: a palavra, o livro. A série de entrevistas do Projeto Sujeitos Leitores é apenas uma das várias estratégias que elaboramos.

  • G Ideias: Há outros projetos em andamento nesse sentido?

Sim, tanto no sentido específico do termo “leitura” (a leitura da palavra escrita) quanto em sentidos mais amplos, de leitura “do mundo” mesmo, de refinamento do olhar, esse olhar que está tão empanturrado de coisas, de informações. De tanto excitar os sentidos, amortecemos esses mesmos sentidos. Trabalhamos com um projeto chamado “Leituras”, que é um encontro quinzenal promovido pela nossa biblioteca, e que reúne adolescentes interessados em discutir literatura e suas relações com a música e com o cinema. Temos um Clube da Leitura que também dá o que falar – já foi tema de reportagem da própria Gazeta do Povo –, que agrega crianças em torno da leitura, muitas dessas leituras até relacionadas às “modas literárias”, mas com uma professora excelente que orienta e ajuda na transição para leituras mais consistentes. Fazemos também feira de livros, na qual chamamos alguns escritores, ilustradores para conversar com os alunos (queremos fazer links entre os entrevistados em nossos vídeos e a feira nesse ano de 2011, passando os vídeos para os alunos e chamando os entrevistados para conversar pessoalmente com eles depois – a feira será no final de outubro). Temos uma revista de educação, a Mediação, que está indo para o seu vigésimo número, e que já colocou o tema da leitura várias vezes em discussão (além de promover a leitura no seu sentido mais óbvio, já que é uma revista para ser lida (risos)). Ainda internamente, estamos montando uma série de banners em que cada educador do colégio (são mais de 200) aparecerá e, ao lado de sua foto, serão postos a capa, título e autoria de dois livros escolhidos por ele. Um é o livro que mais lhe marcou na infância e outro é o livro que mais lhe marcou ultimamente. Achamos importante colocar o professor como modelo, até para ele próprio se enxergar como pessoa que lê (ou não lê, o que também acontece), e dizer ao aluno “veja, teu professor também lia na tua idade. E continua lendo. Esses livros nós temos na nossa biblioteca. Que tal pegar pra ler?”

Nossa oficina permanente de Cinema e Vídeo também já trabalhou o tema, seja adaptando contos com os alunos, seja falando sobre a própria atividade de ler.

A biblioteca das crianças também tem uma atividade de contação de histórias que é bem forte, organizada mesmo.

Uma parceria que estabelecemos e que nasceu do atual professor de literatura do terceiro ano foi a Biblioteca Anárquica: a partir dessa ideia, montamos estantes no corredor do Ensino Médio, chamamos dois artistas para ilustrar o lugar com o tema da leitura e colocamos livros lá. Sem qualquer tipo de controle, os alunos levam e trazem livros e revistas, sem prazo, sem carteirinha, sem nada. Se não devolver, ninguém vai saber. Atualmente, muitos pegam livro, o que é ótimo, mas pouquíssimos trazem de volta ou colocam novos títulos lá. Aos poucos, precisamos ir criando o hábito de fazer desse espaço um espaço de troca consciente, autônomo e voluntário.

(…)

Certamente estou esquecendo outras estratégias, mas acho que já é um bom tanto.

  • G Ideias: Por que parece ser tão difícil, para a maioria dos professores ou do pessoal que trabalha com educação, interessar os alunos pela literatura? Como você vê esse problema (se é que considera isso um problema)? Para você, a escola tem ou não tem cumprido essa função (se é que é uma função da escola)?

Ah, a escola tem que ter esse papel, sim. É uma das principais agentes de difusão da leitura.

Eu acho que a gente é muito idealista. Isso não é um problema, claro que não, mas às vezes idealizamos até o nosso passado [tipo “Oh, que saudades que eu tenho da aurora da minha vida, da minha infância querida, que os anos não trazem mais”, (risos)], como se fôssemos super leitores com 11, 13, 15, 17 anos. Não éramos (pelo menos a maioria de nós). Mas esse idealismo é bom porque faz a gente querer que todos sejam super leitores, mesmo sabendo que é uma batalha quixotesca. É essa luta, entre aspas, “perdida”, que faz com que consigamos transformar alguns alunos em ótimos leitores. Jamais conseguiremos com todos. Sempre conseguiremos com vários. A heterogeneidade é outro fator que torna esse desafio algo imponderável: tem gente que já chega super bem e a gente só tem que ter cuidado para não estragar o sujeito (é um mantra que eu fico repetindo: “não posso estragar esse cara, não posso estragar essa guria”); outros passam a ser ótimos leitores na medida em que as aulas ou atividades ligadas à leitura acontecem. Há outros ainda que somente anos mais tarde é que você vai descobrir que se tornaram excelentes leitores (…). Dia desses, um ex-aluno me encontrou no Facebook e escreveu longamente pedindo desculpas por ter sido um aluno tão relapso, mas que hoje ele reconhecia o verdadeiro poder da leitura, essas coisas todas. Quer dizer: o cara era provavelmente daqueles alunos que ficavam voando, que nos fazem pensar que nada vale a pena por maior que seja a alma. De repente, a ficha cai. (…)

Para evitar a embromação toda aí de cima, poderíamos resumir assim: os ritmos são diversos, a heterogeneidade é grande. Tem gente que já chega super bem, tem gente que a gente vê se transformar ainda durante o processo das aulas, tem gente que a gente só vai descobrir bem depois, tem gente que a gente não vai descobrir nunca, e pode ser que tenha se transformado, pode ser que não (claro, tem gente que vai passar pela vida sem jamais se tornar leitora).

Precisamos também parar de colocar culpa nos novos meios digitais etc. Mais gente lê hoje do que lia antes, mesmo que na internet, com aquelas informações em flash. Uma dificuldade está em mostrar para o aluno que a leitura do literário não pode ser substituída pela leitura da informação diária rápida. Elas podem ser complementares. Grosso modo, a leitura do literário te dá profundidade, enquanto a da internet, do jornal, da revista te dá leitura de superfície. Conjugar essas modalidades pode trazer amplitude e profundidade ao leitor. A concentração para ler uma obra de 300 páginas traz benefícios que nenhuma parafernália multitarefas será capaz de dar. O foco e a reserva de “solidão solidária” que um livro proporciona serão importantes sempre.

A escola só conseguirá ser mais protagonista na formação do aluno leitor se o professor for, de fato, um leitor também. Pode parecer absurda de tão óbvia uma afirmação como essa, mas a gente ouve muito em curso de Jornalismo que os estudantes mal leem jornal. Na classe de professores não é muito diferente. Quando eu dava aulas para o curso de Letras no Ensino Superior, os alunos – veja bem, alunos de Letras – resistiam à leitura, alguns até sob o argumento de que estavam fazendo Letras com habilitação em Inglês e que, portanto, dariam aula de inglês e não precisariam ficar lendo tanto. O professor que lê sabe do que está falando, e isso faz com que a gente se depare com outra situação: só sabe das vantagens de ser leitor aquele que é leitor. Então, como convencer um não leitor a ler se ele não experienciar isso? Sem essa vivência, nossa fala vira apenas blábláblá. Aí quem não lê e quer dizer que lê só sabe falar um monte de clichês meio bobos. Vem aquele papo de que ler é uma “sensação mágica”, “uma viagem”, “te dá uma coisa” (risos) etc. Como figura de linguagem, vá lá, mas repetir esses chavões e não conseguir mostrar o porquê da tal magia? Tem um trabalho intelectual aí que traz um prazer consistente. Você investe contra (ou com, ou em) um texto e sai dele com a certeza de que não é mais o mesmo porque você desbravou a linguagem e ela reverberou, ela provocou atritos com tua visão de mundo e, desse atrito, o leitor se modifica. Como disse esses dias em outra entrevista, nós temos um mundo de certezas e incertezas dentro da gente. O livro também traz isso dentro dele e, desse atrito entre mundos, saímos diferentes, modificados de alguma forma justamente por causa de um jogo de estranhamentos e identificações. E muitas vezes nossas certezas desmoronam. Esse processo de investigação de linguagens é papel da escola. Mas não quero aqui dar uma de cabeçoide e me esquecer do prazer. É claro que o prazer está presente, mas não podemos aliciar o aluno dizendo a ele que ler é legal e que é mágico e que é puro prazer, como se fosse o mesmo prazer oco que a gente sente quando assiste a um filme banal. Eu muitas vezes assisto a filmes banais. Dou umas risadas, fico apreensivo em alguns momentos, tiro sarro de algumas cenas e depois que o filme acaba saio praticamente igual, desligo a TV e nunca mais vou me lembrar daquele filme. Então aí nós temos um prazer bobinho, que não nos exigiu esforço. Não tenho nada contra esse prazer, mas a leitura é diferente, exige esforço, seja o esforço da solidão em um mundo que parece condenar os momentos solitários, seja o esforço de enfrentamento da linguagem. Mas e na hora de comparar a qualidade do prazer? Quem lê sabe o resultado dessa comparação.

E note que não estou querendo dar lição de moral, como se eu fosse um ser acima de tudo e ditasse as verdades do mundo. Tenho minhas grandes dificuldades: preguiça de começar, dificuldade de concentrar em um único foco (…). Então, falo isso por experiência própria e não como alguém que se acha e acha que é fácil fazer tudo isso que estou falando.

Toda essa enrolação de novo para dizer: a escola precisa ensinar o aluno a trabalhar, a se esforçar. Isso pode – e deve – começar com historinhas simples (não simplistas), mas o aluno precisa chegar lá nos 17 anos com uma bagagem capaz de fazer com que distinga prazeres conquistados de prazeres recebidos sem qualquer esforço. Que valor teria o diamante se ele desse em árvores (risos)? bem, não sei se a comparação é boa.

Outra coisa eu posso te dizer: falar aqui nessa entrevista o que deve ser feito é bem mais fácil do que chegar lá e fazer.

  • G Ideias: O vestibular e o Enem atrapalham muito o ensino de literatura na escola?

Se eu estivesse na comissão que elege os livros do vestibular da UFPR, por exemplo, talvez eu tivesse outra opinião, fosse convencido da lista que eles escolhem (sei que o pessoal lá é bom e sério), mas, aqui de fora, não me entra na cabeça por que tanto livro do século XIX para trás. Ou então bem do início do século XX. Tirando o Bosco Brasil, todos já estão mortos há mais de 30 anos (pensando na lista 2012). Entendo a necessidade de valorizar nossa história, de dialogar com a tradição, de conhecer alguns cânones da nossa literatura, mas não dava pra colocar uns 3 nomes representando os séculos XVII, XVIII e XIX, mais uns 3 modernistas, mais uns 3 contemporâneos “de verdade” e, sei lá, entre eles 1 paranaense? Aqui, de fora, não consigo entender. Acho que isso atrapalha. Ajuda a alimentar o imaginário de que literatura é um negócio velho, escrito por velhos que já se foram, que serviu para pensar um tempo que já passou e que hoje não tem nada que preste, nada que tenha algo a dizer para a sensibilidade contemporânea.

Além disso, muitos alunos já sabem que para fazer o teste não é preciso ler os livros. Uma aula com características da obra e da época mais um resumo completinho dão conta do recado e o aluno pode fazer a prova sem vivenciar a linguagem dela. Eu dizer que Dom Casmurro é a história de um cara que amava uma mulher, casou-se com ela depois de um pouco de dificuldade e foi tomado de ciúme ao desconfiar que o filho nascido não era dele está muito longe do que a obra é, com seus requintes de linguagem. E boa parte dos alunos faz isso: conhece a historinha. Contada assim, parece até história de novela das sete.

(…)

Outro problema é a profusão de listas. Se o aluno for fazer vestibular em 3 ou 4 instituições diferentes, ele pode acabar com uma lista de 30 livros para ler. Sabe quando ele vai fazer isso? Nunca. Talvez um em cem alunos faça isso.

Por outro lado, acho que a iniciativa de trocar o conteúdo de literatura, saindo da classificação das escolas literárias e indo para a leitura de obras específicas é um grande avanço. Só que a lista poderia ser mais arejada. Trabalham-se os gêneros (romance, conto, teatro, poesia) e isso é bem legal. Funciona com o aluno esforçado, que foi convencido pelo professor de que a leitura daquelas obras é de uma importância que vai além da prova. Eu costumava brincar fazendo a conta de que vinte páginas lidas por dia seriam suficientes para que dez obras pudessem ser lidas e, inclusive, relidas. Pegava as edições das obras, somava as páginas e dividia pelo número de dias que faltavam para o vestibular. E dava tempo até com certa folga. Minha incompreensão, enfim e sendo repetitivo, é com a escolha de autores. Tem que fazer a tradição dialogar com a contemporaneidade.

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  • G Ideias: Depois de Harry Potter e da série Crepúsculo, os alunos mais jovens têm lido o quê? E os jovens que leram esses livros? Tornaram-se leitores?

Essa é uma boa pergunta. E quando digo que é uma boa pergunta é porque eu não tenho uma boa resposta. Gosto muito de perguntar isso para as pessoas da área, mas não de responder (risos).

Não sei se vale o raciocínio: ouvir sertanejo “universitário” vai te fazer mais tarde ouvir Mozart? Se valer a comparação, então podemos dizer: não há nada que mostre que o leitor de Harry Potter lerá obras mais elaboradas mais tarde. Ele pode cair numa fórmula e ficar prisioneiro dela, achando tudo que for diferente algo difícil e chato. Essa é uma maneira de ver a questão, e é a opinião também do Harold Bloom, que não é de se jogar fora.

Por outro lado, a própria prática da leitura – qualquer que seja – te obriga a um exercício mental e de imaginação que é infinitamente melhor do que ficar olhando para o teto. Então, entre não ler nada e ler coisas simples, com possibilidade – ainda que sem nenhuma garantia – de dar uns saltos de qualidade, fico com a segunda opção. Vamos deixar os adolescentes lerem todo o Harry Potter, toda a série Crepúsculo. Se, no entanto, estiverem lendo similares a isso quando tiverem 35, 40 anos… aí… sei lá.