Por Cezar Tridapalli

Imagine: um espaço delimitado, com pessoas/personas dentro desse espaço expondo ou escondendo seu modo de ver o mundo, de lutar pelos seus interesses, de se relacionar com o outro – de modo verdadeiro ou não, velando ou revelando suas loucuras, seus conflitos. A tudo isso, alguém acompanha de fora. E se identifica, ou estranha, amaldiçoa, torce por alguém, coloca-se no lugar de outro para, experimentando o ponto de vista alheio, viver a vida recriada.

O título desse post já entrega o propósito do primeiro parágrafo. Afinal, estamos falando de Literatura ou do Big Brother Brasil? A descrição acima não é adequada a ambos?

“Ah, mas peralá, aí você já está exagerando. Comparar os imortais personagens da literatura mundial a um bando de fúteis que não têm o que falar é assumir a barbárie cultural”, alguém pode argumentar. E eu fico tentado a pensar em uma série de personagens fúteis que a literatura já criou, dando-lhes profundidade justamente pela futilidade.

Parece contraditório, mas não é. Imaginei de bate-pronto a personagem de um livro que li recentemente: a protagonista de Bonequinha de luxo, de Truman Capote, é Holly Golightly, e é uma figura emblemática. Bobinha, superficial, aparentemente dondoca, é o arquétipo da menina de vida sofrida que tenta se dar bem, errando e acertando, tropeçando na ética mesmo tendo bom coração. Essa figura – inegável! – exerce enorme fascínio no leitor.

Eu não conheço os personagens dos diversos BBBs que já existiram – e não falo isso por querer esconder algo ou por me sentir envergonhado se assistisse. Uma personagem, no entanto, me chamou a atenção, que foi Tessália, na versão 2010 ou 2011. Me chamou a atenção porque foi minha aluna no curso de Publicidade e Propaganda em 2005. Era uma menina bacana, discreta, que, inclusive, leu literatura ao longo da disciplina. Não seria o tipo de menina na qual eu colocaria, de cara, uma tarja na testa e escreveria “fútil”. Ela era uma no meio de tantos jovens que estavam lá estudando cada um a seu modo. Poderia, como qualquer um de nós, ser personagem de livros. Daí é que vem uma das muitas perguntas que vou fazer aqui: no reality show, temos, enfim, figuras muito diferentes de Holly Golightly? São pessoas que querem faturar algum, muitas vezes de origem humilde, que acham que a aceitação e a fama passam pelo crivo do aparecer por aparecer, encantar espectadores pelo simples fato de existir.

Onde estaria a diferença entre a propalada nobreza da literatura e a alardeada baixaria do reality show no estilo Big Brother Brasil? Estaria na linguagem? É uma boa estrada de investigação. Estaria no veículo? Creio ser possível especular também por aí. Estaria na autoria e na figura do narrador, que arma os enredos no livro enquanto no BBB as criaturas ficam jogadas à própria sorte, mostrando-se superficiais sem charme, nus e crus? Esse aspecto que envolve a figura de um narrador me parece uma pista excelente, intimamente conectada à questão da linguagem.

Mas, valendo-me da teoria literária conhecida como Estética da Recepção, gostaria de pensar o outro lado da ponte. Se temos o criador e o objeto criado, o fluxo se completa com a figura do receptor, que não é passivo, mas parte integrante da contextura do sentido, do significado.

Se milhões de pessoas ao mesmo tempo, em vez de assistirem ao BBB, lessem Bonequinha de luxo, como seria a repercussão? Será que as pessoas fuzilariam Holly Golightly num paredão? Será que Raskolnikof, de Crime e Castigo, faturaria um milhão de reais mesmo tendo assassinado uma velhinha a machadadas? Será que Gregor Samsa, o inseto-protagonista de Kafka, chegaria a ser líder? Como esses personagens seriam vistos se sofressem uma avaliação em massa? Como a mídia crítica, esclarecida e ilustrada reagiria a esses tipos? Quais seriam as hashtags do Twitter, os comentários no Facebook?

Seja na literatura, seja no reality show, temos personas superficiais, idealistas ambiciosos, maníacos com algum grau de transtorno psicótico, seres oprimidos e perdidos na vida. Temos de tudo.

Minha pergunta continua: por que Holly Golightly é fascinante, por que um assassino como Raskolnikov tem a nossa simpatia, por que Gregor Samsa nos torna mais solidários? Acima, já deliramos imaginando-os trancafiados numa casa disputando um prêmio de reality show. Você consegue imaginar os personagens do BBB trancafiados num livro, nas mãos de um bom narrador? Seriam eles execrados?

Quem disse a frase abaixo?

“A verdade é que as coisas boas só acontecem se a gente for uma boa pessoa. Boa, não, honesta é melhor. Não honesta no que diz respeito à lei – eu violaria um túmulo e roubaria os olhos do morto se isso servisse para melhorar o dia -, mas honesta consigo mesma”.

Se for uma personagem da literatura, daremos uma risadinha condescendente e poderemos entender isso como um artifício para nos fazer pensar na ética pragmática, cotejarmos o tipo de pensamento com nossas atitudes na vida e quem sabe nos afastarmos desse comportamento vicioso.

Se for uma personagem BBB, vamos dizer “eis a ética contemporânea: cada um por si, autoajuda vagabunda, slogan publicitário que exalta o sentir-se bem consigo mesmo a qualquer custo”.

A tragédia grega já nos ensinava que um comportamento falho pode nos custar caro, e Édipo está aí para provar. A comédia grega também nos faz rir dos vícios dos personagens para que vejamos o quão ridículos seremos nós se repetirmos esses vícios.

Eis, então, outra pista possível para investigarmos o que torna a literatura diferente do BBB: enquanto naquela os personagens fictícios, cheios de vícios, nos fazem pensar o quanto não podemos nos tornar assim, neste constatamos, com horror e tristeza, que nós já somos assim.

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Se esse post suscitar algum tipo de interesse, gostaria de continuar a discussão aprofundando apontamentos feitos acima: investigar em que grau a diferença entre a literatura e o Big Brother Brasil pode estar na linguagem, na autoria, na narração, no receptor. Se não repercutir, parto para outro assunto.

Aquele abraço.

Cezar

OBS: o trecho citado é da personagem Holly Golightly, de Bonequinha de luxo, livro de Truman Capote, que eu recomendaria enfaticamente.