Ah, já não é de hoje, eu sei, que existem discussões entre as coisas que são naturais e as coisas que são culturais. Ou mesmo artificiais. Essa última palavra até tem um sentido meio pejorativo, pois se opõe ao natural, que tem um jeito de coisa boa, legal, saudável. Natural, grosso modo, nada mais seria do que algo que não foi feito pela ação humana, que já estava disponível sem que precisássemos meter o bedelho para transformar. E o artificial é o que, óbvio, se utilizou de algum artifício transformador. O fato de precisarmos nos alimentar é, digamos, natural; o fato de termos amarrado uma pedra pontuda na ponta de um tacape, pra prolongarmos e potencializarmos a ação do nosso braço, a fim de ficarmos mais distante das feras que queríamos comer, já é um artifício que está na base da criação cultural.

Mas, nesse jogo entre natural e cultural, apareceu uma palavra que indistingue tudo: é o “normal”. Às vezes, um interlocutor se espanta com alguma coisa e lá vem o outro, sabichão, pra sentenciar: “ah, isso é normal”. Ele está querendo dizer que isso faz parte das normas, não importa se natural, cultural, artificial.

E a gente acaba se acostumando a certas coisas que passam a ser consideradas normais, até naturais. Quer ver? Nos intervalos de uma programação de TV, existem as propagandas, certo? Só que as TVs são comerciais, mesmo sendo concessões públicas (?!). Elas servem para prestar serviço público, mas estão é preocupadas em faturar altíssimo. Então, qual é a programação de uma TV comercial? É justamente o intervalo. Sabe a história de Alice através do Espelho? É bem isso, tudo se inverte. Para uma TV, a sua programação é: o negócio: a publicidade. O intervalo, para eles, é aquele troço que eles produzem entre umas propagandas e outras, feito para nos entreter e nos segurar na poltrona até vir a programação deles, o intervalo nosso (nessas horas, agradeço a invenção da metralhadora chamada controle remoto!).

Nessa época de Copa do Mundo, são alguns poucos anunciantes endinheirados que podem aparecer na programação das TVs (nosso intervalo). É tanta exclusividade que já cheguei a me perguntar: será que não existe uma pesquisa que mostre o grau de irritação do público por ver tantas vezes o mesmo produto, a mesma piadinha publicitária tantas vezes esfregada na nossa cara?

Que tipo de guerreiro é você, que não toma cerveja de determinada marca? Pra ser guerreiro e encarar arrogantemente os adversários, superar dificuldades, chutar pedra, você, naturalmente, toma cerveja, né?

Aí aparece alguém dizendo que representa o verdadeiro espírito esportivo. Que legal. Talvez, pelo menos, esteja anunciando algo relacionado à saúde, à prática de exercícios físicos… Não, ele está é te querendo vender um carro, pra você contribuir um pouco mais com as filas de congestionamento e com a liberação de CO2 – as plantas precisam, né, pra fazer a fotossíntese. Entendo. Super espírito esportivo.

Ainda tem um ogro amado por crianças e adultos que poderia aproveitar a oportunidade para incentivar as pessoas a controlar o peso de modo saudável. Não, ele usa seu carisma para empurrar comida industrializada, no templo sagrado do fast-food.

Ah, tem aquele cartão de crédito que gosta de tirar sarro dos argentinos, dizendo que eles só torcem pra sair da fila, pra que acabe logo uma partida e não sei o que mais. Aí fala, arrogante, do Brasil, que ganha tudo e que o mundo torce melhor pagando com o cartão de crédito propagado. É óbvio que esse mesmo cartão, que está no mundo todo, deve tirar algum sarrinho nosso em outro país… Cinismo é normal? Natural?

Mais recentemente, vi um cara enganando o outro no ambiente de trabalho e também a própria mulher. Querendo nos fazer rir da situação, somos convidados a abobadamente nos convencer de que perder pontos no trabalho e na relação pessoal não importa… o que importa é ganhar pontos com a operadora telefônica. Super normal, como é que eu não pensei nisso antes? Danem-se as pessoas!

A lista é imensa, mas não preciso te chatear tanto. Só mais uma, prometo: também recentemente, pasmem!, vi um banco utilizar a canção Imagine, do John Lenon. Pense um pouco e me responda: é normal? A gente se acostuma tanto que acha até natural. Gente, Imagine, do John Lenon, fala, entre outras coisas, que o mundo deve ser um só, onde não existam posses, nem ganância e nem fome… Quem mesmo está falando isso? hmmm, sei, um banco.

Bertolt Brecht, o dramaturgo alemão, dizia que crime pior do que roubar um banco era fundá-lo. Mas a peça publicitária é belíssima, com qualidade cinematográfica, pessoas maduras, sérias, marmanjos e moçoilas cantando, embevecidos, a canção de Lenon.

Aí eu entrei no site desse banco e fui ver como eles imaginam um mundo sem posses, sem ganância.

Digamos que você aplique R$ 1000,00 na Poupança, durante um ano. Sabe qual será a sua rentabilidade média anual? 6,5653%

Ou seja, você terá, no final de um ano, o valor de R$1065,65

E se você resolver tomar emprestados os mesmos R$ 1000,00 e pagar em 10 vezes?

Aí é preciso pagar uma parcela mensal de R$ 138,46.

Os juros anuais ficam em 99,94%. Como se não bastasse, ainda aparece um “Custo efetivo total”, que totaliza 105,38% ao ano.

Hmmm, deixe-me ver se entendi: se eu empresto para o banco, ele me devolve 6,5%; se eu empresto do banco, ele me cobra 105%…

Que belo jeito de imaginar um mundo sem ganância, não?

E aí, o que é ou não é normal pra você?

Aquele abraço!

Cezar Tridapalli