O metrô passará sob a canaleta do biarticulado

Hoje eu gostaria de propor um exercício coletivo de idealização do espaço público. Sei que já fizemos isso uma vez (Sobre o útil e o agradável – 25/06/2009) e que constantemente aqui no blog eu toco nesse tema (será que sou um “arquiteto falhado” igual ao Manuel Bandeira? Bem, pra ser igual a ele,  faltaria, entre outras coisas, eu ser um grande poeta…). Mas por que essa minha proposta de hoje é diferente? Porque as idealizações que construirmos juntos aqui poderão ser lidas pelos gestores que estão de fato construindo o espaço público curitibano e da região metropolitana.

Explico melhor.

Você já sabe que, dessa vez, parece que vai mesmo ser implantada a primeira linha do metrô de Curitiba. Sei que tem muita gente a favor e muita gente contra. Mas, independente disso, existe agora um canal entre os responsáveis pelo projeto do metrô e a comunidade curitibana. Estou falando do site http://www.metro.curitiba.pr.gov.br/, que foi para a rede recentemente e que apresenta as linhas básicas do projeto. Entre as várias opções do menu (sugiro que você dê uma espiada em todas), há uma que chama especial atenção, que é a “Consulta pública”. Lá, qualquer um pode enviar suas sugestões a respeito de vários aspectos ligados à construção do metrô.

Por exemplo: você sabia que a maior parte será subterrânea e passará embaixo das canaletas dos atuais biarticulados? E que a proposta é acabar com a canaleta e construir espaços de convivência entre as pessoas? Mas aí vem a pergunta? O que deveria ter nesse espaço de convivência? Deve-se abrir a canaleta para os carros e aumentar o fluxo de veículos? Devem ser construídos parques lineares e ciclovias? Se queremos interação e arrancar um pouco os curitibanos do shopping center, o que deve ter para que as pessoas povoem o novo espaço público?

A famosa Rambla, em Barcelona, Espanha. Local de integração de pessoas e prioridade ao pedestre.

Na Rambla, há espaço para floriculturas, artistas de ruas (diversas “estátuas vivas” ficam lado a lado, com fantasias muito criativas), quiosques, restaurantes, bares, bancas e o famoso “La Boquería”, uma espécie de Mercado Municipal.

A Rambla pintada por uma artista.

Você sabe que, em uma viagem de metrô, deixamos de ver a dinâmica da cidade, pois vamos de um ponto a outro embaixo da terra, sem observar paisagens, pessoas, ritmos de vida nos bairros etc? Você gostaria de ir de um ponto a outro olhando pela janela e vendo apenas estruturas escuras de metal e concreto? Como urbanizar de forma humana o espaço subterrâneo? Você gostaria que houvesse acesso sem fio à internet nas estações de metrô e durante a viagem, dentro dos próprios vagões? Você prefere o silêncio para ler seu livro enquanto viaja ou gostaria de ver telas de lcd com campanhas educativas bacanas? Ou campanhas sem som, apenas com estímulos visuais? Que tal termos bicicletários próximos às estações de metrô, para que você possa fazer parte do seu trajeto de bike, deixá-la segura e seguir de metrô por percursos mais difíceis?

Tive a oportunidade de conhecer alguns sistemas metroviários em várias cidades. Alguns são impecáveis quanto à eficiência (Paris e Nova York são bons exemplos), mas são antigos, muitas estações são opressivas (a gente se sente abafado em boa parte delas), muitos vagões são ostensivamente pichados, vandalizados (Roma e Milão são bem assim). Outros são impecáveis quanto à limpeza e ao conforto das estações (São Paulo, Porto, algumas linhas de Barcelona, Madri, Boston), mas não possuem rotas e horários tão eficientes. Em Lisboa, há estações tão abaixo da terra, com tantas escadas, que a gente tem até preguiça, pois perde muito tempo até chegar ao metrô propriamente dito. Assim, o tempo que se ganha dentrodo metrô se perde procurando o metrô!

Enfim, é óbvio que experiências de outras cidades são válidas (algumas já têm sistema metroviário desde o século XIX!). Como aproveitar essas experiências para, junto com elas, criar algo próprio, com identidade, original?

Olha, você pode ter inúmeras críticas ao projeto do metrô curitibano e pode ignorar ou bufar ao ler esse post, achando que estou deixando de refletir sobre problemas muito mais sérios da cidade e que precisariam ser combatidos antes. Posso, inclusive, concordar com você. Mas a tentativa aqui é, a partir de uma experiência real (A “consulta pública” sobre o metrô curitibano), tentarmos pensar o espaço que é de todos. Se o espaço é pra ser coletivo, por que não pensá-lo coletivamente? É que eu acho que se a gente ficar só falando mal, continuaremos reféns das decisões de poucos a respeito do espaço de muitos. Também tenho minhas reservas e não me surpreenderia ao saber que esse novo site tão democrático da internet, sobre o metrô, é só pra “inglês ver” e que no final eles farão do jeito que querem e ainda dirão que foi construído por todos. Então, e se a gente pagasse pra ver?

Que tal fazermos o seguinte: se você quiser, deixe suas sugestões diretamente lá no site; se preferir (e eu torço para que prefira!), deixe aqui suas sugestões (não importa o tamanho, pode conter fotos, anexos, vídeos etc), com seu nome, e nós do blog vamos reunindo todas elas, montamos um documento (que será postado aqui) e enviaremos em conjunto para o site do metrô curitibano. Que tal? As sugestões poderão ser enviadas até 31 de outubro.

Pense, seja criativo, não tenha medo de ousar. Se você já teve experiências em outras cidades, tente se lembrar do que você gostou, do que não gostou. E manda pra cá. Se não teve, imagine.

Esse pode ser um exercício de projeção do espaço coletivo de grande valia para educadores e alunos. Mas não só pra eles. Pra qualquer um.

A intenção maior aqui é criar um movimento com várias cabeças pensantes e mostrar que a internet pode ser lugar de inteligência coletiva.

Se você gostou, ajude a divulgar. Pense em quem curtiria refletir sobre isso. Vamos movimentar ideias!

Aquele abraço.

Nilton Cezar Tridapalli