Um dia, nesse espaço do blog, eu me perguntei por que boa parte das pessoas fica feliz com o aquecimento da economia e o aumento na venda do número de veículos e, ao mesmo tempo, lamenta os congestionamentos e o aquecimento global. Às vezes, os próprios jornais e governos parecem não querer discutir a fundo esse paradoxo. A contradição é elemento importante na vida, mas a incoerência já é, a meu ver, algo ruim.

Desde aquele tempo pra cá, deixei essas dúvidas no famoso stand by. Eis que recebo pelo Facebook o convite de um amigo, algo como “Cé, vou pra Curitiba dar uma palestra no CEPAT nessa quinta-feira. Se puder, apareça”. Por coincidência, o CEPAT (Centro de Pesquisa e Apoio aos Trabalhadores) tem relação aqui com o Medianeira, pois ambos somos mantidos por jesuítas. Respondi “que legal, ajudo a divulgar, qual é o assunto?”. E ele responde “é o tema do meu livro: A natureza como limite da economia”.

Além de ajudar a divulgar, fui lá ouvi-lo falar. E eis que tudo se juntou: o livro que ele publicou, resultado de sua dissertação de mestrado, apresenta um economista romeno que foi banido da comunidade científica e econômica por suas ideias pouco – ou, melhor, nada – ortodoxas: o nome dele é Nicholas Georgescu-Roegen (1906 – 1994). No Brasil, pouquíssimo material traduzido. No mundo, a partir da década de 1970, o economista romeno passou a ser chamado – pejorativamente, claro – de “ecologista” e foi sistematicamente ignorado.

E a palestra deu aquele clique, acordando o post no qual eu me perguntava sobre essas incoerências entre o estudo da nossa casa (Ecologia) e o abastecimento da nossa casa (Economia). O economista romeno detona o canônico diagrama da economia tradicional, usa as leis físicas da termodinâmica para mostrar que é impossível fazer da trilogia matéria-prima/capital/recursos humanos um moto-perpétuo sem perda de energia (entropia), diz que o mundo precisa começar (isso ele dizia já antes de 1970!) a mudar o paradigma de uma economia que quer crescer ad eternum e questiona um tal de desenvolvimento sustentável, uma forma de vender ilusões de que é possível equacionar “a oferta de recursos naturais para sustentar os padrões de consumo e produção”.

(Enfim, a palestra e o livro me deram um banho de modéstia na minha ignorância, já que eu achava que “nossa, será que só eu penso isso?”. Sabe aqueles delírios de grandeza que às vezes a gente tem? Foi ótimo tomar uma bordoada. Bordoadas no ego são vitais para colocar a gente nos eixos.)

Mas, continuando, eu ainda queria listar aqui pra gente uma série de proposições de Georgescu, na citação do livro do Andrei Cechin, esse meu amigo que veio fazer a palestra. Não deixe de acompanhar:

“Georgescu propôs um programa de austeridade, um freio ao crescimento, para ser aplicado primeiro às economias avançadas. O Programa Bioeconômico Mínimo listava os seguintes pontos:

1. A produção de todos os instrumentos de guerra deveria ser proibida.

2. Os países não desenvolvidos devem ter ajuda dos países desenvolvidos para chegar a um patamar de qualidade de vida.

3. A humanidade deveria gradualmente reduzir sua população até o nível em que pudesse ser alimentada apenas por agricultura orgânica.

4. Até que o uso direto da energia solar seja viável e generalizado, todo o desperdício de energia deve ser evitado.

5. As pessoas devem se livrar da sede por bugigangas extravagantes, como, por exemplo, carrinho de golfe.

6. As pessoas devem se livrar da moda. É uma doença jogar fora um casaco ou um móvel, enquanto ainda podem ser usados. Trocar de carro todo o ano, então, é um crime bioeconômico. Se os consumidores se reeducassem para desprezar a moda, os produtores focariam na durabilidade.

7. Relacionado ao último ponto, é necessário que os bens duráveis sejam ainda mais duráveis e que sejam desenhados para serem consertáveis.

8. É preciso perceber que um importante pré-requisito para uma vida com qualidade é uma quantidade substancial de lazer vivida com inteligência.”

Enfim, a humanidade vai precisar fazer escolhas, embora ele não fosse ingênuo o suficiente a ponto de achar que os indivíduos todos dariam as mãos ao redor da Terra e parariam de consumir de repente e por vontade própria, cantando “We are the world”.

O fato é que o livro (que eu ganhei ao final da palestra!) parece dar várias respostas explícitas e também algumas implícitas (como, por exemplo, o fato de que pensar no decrescimento da Economia como algo bom possa levar uma pessoa ou um movimento ao ostracismo).

E você, o que você tem a dizer sobre essa ideia de fazer a economia decrescer? Claro que as regiões do mundo são muito heterogêneas e há muitas nuances dessa discussão. Mas já imaginou todo mundo comemorando o fato de que as indústrias estão fabricando menos, que nós estamos comprando menos? Que nossos carros, lâmpadas, casas, sofás, impressoras duram 30 anos?

A ideia lhe parece absurda? Se essa ideia é ridícula, qual seria outra alternativa para os problemas ambientais? Comentaí.

Se você estiver com tempo e bem a fim de saber mais sobre como engenheiros podem projetar produtos para durarem menos, o vídeo abaixo é imperdível.

Aquele abraço.

Cezar Tridapalli

OBS: minhas desculpas ao autor do livro pelas inevitáveis simplificações. Andrei, fique à vontade para me corrigir.