Os desafios pedagógicos para o novo aprendizado jesuíta  

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A prática pedagógica espelha a prática da vida. Esse é o mote de “Metodologias ativas para uma aprendizagem mais profunda”, artigo do pesquisador José Moran, da USP, na obra Metodologias ativas para uma educação inovadora (Editora Penso, 2018), organizada por Moran e Lilian Bacich. Moran defende que a aprendizagem educacional, ativa por excelência, é a extensão do processo natural de adaptação permanente vivido pelo ser humano: “Aprendemos ativamente desde que nascemos e ao longo da vida, em processo de design aberto, enfrentando desafios complexos, combinando trilhas flexíveis e semiestruturadas, em todos os campos (pessoal, profissional, social)”, afirma.

Em um período tão incomum para a prática pedagógica como 2020, com as mudanças nos processos concomitantes aos efeitos econômicos do cenário macro, flexibilidade e adaptação são duas palavras tão necessárias e repetidas quanto complexas, evidenciando e escondendo os desafios de ser educador hoje. Enxergar os novos aprendizados se torna, portanto, crucial. “Foi necessário repensar as nossas estratégias e relacioná-las ao ambiente virtual para que, mesmo distantes fisicamente, pudéssemos levar, além do conhecimento cognitivo, as dimensões emocional e espiritual do aprendizado jesuíta”, afirma Kelly Cordeiro Martins, educadora do Colégio Medianeira.

Ser educador em uma época de transformações drásticas nos procedimentos educativos acelerou o contato com novas ferramentas, em sua maioria digitais. Para a educadora Karia Sayuri Itiyama, a aprendizagem digital modificou alguns procedimentos clássicos de trocas de conhecimento. “Não termos o contato visual direto para lermos as mensagens corporais. Mesmo que inconsciente, isso fazia parte do convívio e do relacionamento entre estudante e professor, e com os colegas. Também teve muito impacto o distanciamento do processo da produção do estudante, como passar pelas carteiras e ver o andamento do trabalho, a interação entre eles durante a produção, a troca de ideias”, afirma Karina.

De fato, a escola sempre foi um espaço das relações de construção, o local de encontro, em que os projetos pedagógicos são efetivados — a mediação de conhecimentos por excelência. “Esse ano precisamos nos reorganizar dentro de um novo espaço, constituído de maneira virtual”, completa Kelly. De acordo com o economista Ladislau Dowbor, em “Da propriedade intelectual à economia do conhecimento” (2008), os dilemas da educação contemporânea passam por entender os dilemas do próprio sistema capitalista vigente e o enfrentamento de novas variáveis. “Restabelecer o equilíbrio entre a remuneração dos intermediários, as condições de criatividade dos que inovam, e a ampliação do acesso planetário aos resultados – objetivo estratégico de todo o processo – é o desafio que temos de enfrentar”, defende. Em suma, reconhecer que tudo está mudando e também a forma de dividir os conhecimentos.

Sob o protagonismo do coronavírus, com o impacto da crise financeira nas instituições educacionais e o deslocamento da aprendizagem presencial para o ambiente virtual, surgem novas situações de enfrentamentos para os educadores no atual panorama. “Em casa, os estudantes relatam que é mais fácil perder a concentração devido às várias distrações que os rodeiam, como familiares, o próprio celular e a possibilidade da postura informal”, esclarece Kelly. “Assim é necessário trazer estratégias que partam do interesse das crianças e escutar o que nosso estudante nos diz, manter o vínculo de afetividade com o conhecimento”, completa.

O PEC, em seu artigo 26, reforça o peso das tecnologias digitais e a alteração que as tecnologias causam nas sociedades contemporâneas. “Há uma conexão em tempo real entre os seres humanos e os coletivos, independentemente de onde estejam, na qual virtual e real se misturam e afetam”. Nesse ínterim, educadores se organizam nos espaços digitais de aprendizado e refletem sobre as transformações, sem esquecer da importância da presencialidade. “Sentimos muita falta da interação presencial, dos encontros da socialização”, completa Karina. “Sinto falta de estar ao lado de cada aluno meu, brincando, jogando, ensinando e pegando em suas mãos para fazer as letras e números”, enfatiza Kelly. “Certamente, as novas rotinas produzirão memórias afetivas em todos”, completa a educadora.

Com tantas saídas da zona de conforto, como fica a pedagogia jesuíta, há quase 500 anos promovendo a educação no Brasil? O PEC, no artigo 41, relembra a importância do estudante como centro do processo pedagógico: “Garantir a aprendizagem integral exige da escola, hoje, a compreensão de que o contexto mudou, os alunos aprendem de formas e em tempos distintos, em espaços que não se limitam ao escolar, exigem respostas individualizadas, diversos modos de fazer e de mediar a construção do saber”.

Em Educação jesuíta: tradição e atualização, Luiz Fernando Klein, doutor em Educação, filósofo e teólogo, estabelece uma importante definição entre tradição e atualização. No sentido mais comum, costuma-se entender que a tradição é algo parado, estático, antiquado, enquanto a atualidade seria o moderno, o que se movimenta. “No entanto, tradição não significa algo estacionário ou cristalizado, como mostra o verbo latino ´tradere´, do qual provém, significando entregar, transmitir, passar, confiar, ceder, comunicar, de uma geração a outra, de pai para filho, dados, doutrina, costumes, valores. Tradição é, por conseguinte, algo dinâmico, fluente, em movimento”, define Klein.

Em linhas gerais, para os educadores, o atual cenário também pode ser a oportunidade de aprimorar as bases pedagógicas tradicionais, em contato inerente com as inovações tecnológicas. “Mais do que nunca, é preciso pensar na ética do cuidado e no desenvolvimento de aprendizagens socioemocionais. De forma alguma, 2020 é um ano perdido”, defende Kelly. “Temos evidências cada vez mais claras de que, se por um lado perdemos algumas aprendizagens, por outro, ampliamos a possibilidade de desenvolvermos outras habilidades tão essenciais para o mundo futuro”, completa Karina.

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