Este é o último texto da série de três escritos dos Estados Unidos. Se tudo der certo, já estarei de volta quando estas reflexões forem “ao ar”. A cada volta de um outro país, me convenço sempre mais de que entrar em contato com outros modos de levar a vida também serve para valorizarmos o nosso jeito. É muito bom sentir falta do nosso país e da nossa cidade quando sabemos que vamos voltar em breve.

Bem, já perdi umas boas linhas nas divagações do começo, que nada têm a ver com o que quero falar. Vamos lá: depois de Nova Yorque, vim para Boston/Cambridge, onde ficam simplesmente lado a lado a Universidade de Harvard e o MIT (Massachussets Institute of Technology). Depois daquele “tour” básico e da foto ao lado da estátua do John Harvard, encontrei a livraria da Imprensa Universitária do MIT. Vale ressaltar que os preços dos livros aqui são mais baixos em relação ao Brasil e que é verdade aquela história de que o número de leitores é extremamente elevado. Nos metrôs, ônibus e parques, a quantidade de leitores deixa a gente até encabulado por não ter nada na mão a não ser um guiazinho pra turista.

(Ai, segunda derrapada em dois parágrafos! Divaguei de novo, mas essa última divagação já chega bem mais perto de onde quero).

Com tantos livros de títulos tentadores e preços possíveis, a única barreira fica sendo o tamanho da bagagem. Enfim, comprei uns seis ou sete, entre os quais um livro impresso em papel que fala do fim dos livros impressos em papelPrint is dead, de um cara chamado Jeff Gomez – escritor de romances e agora trabalhando na indústria de publicações – fala de toda a dificuldade pela qual a imprensa tradicional vem passando (que vai continuar se não houver o que essa indústria menos gosta de fazer, que é mudar). Embora, evidentemente, a mídia impressa não morreu, ao contrário do que afirma o título do livro, ele diz que pelo menos doente ela já está… e que essa doença é terminal.

Eis um dos modelos de e-book que estão ousando substituir o livro de papel…

Como trabalho em um colégio e tenho vários amigos que dia-a-dia discutem e têm contato com livros de papel, sei que muitos acham essa ideia um tanto delirante. Como ficar preso a um computador para ler um romance? Aquela tela é tão ruim, tão desajeitada. E o barulhinho da folha sendo virada? E o cheiro do livro? E a sensação tátil? E se quero ler na beira da praia? E quando quero voltar a página em frações de segundo? E se quero rabiscar o rodapé, a lateral, grifar, desenhar?

Olha… sinceramente… sempre há na vida aquilo que na literatura, no teatro e no cinema a gente chama de ponto de virada. Até pouco tempo atrás, eu era um desses convictos que achava que o livro impresso não iria acabar jamais. Esse ponto de virada ao qual me referi significa que a estabilidade da certeza está prestes a pender para o outro lado.

Por dois motivos básicos: o primeiro é porque pouca coisa dura para sempre. Até chegarmos a esse modelo de livro que temos hoje, experimentamos muitas outras formas. Então ninguém pode dizer que o livro, como o conhecemos, seja o ápice, o ponto final da viagem. Acho que ele é estágio, assim como o que vier a sucedê-lo… Lembrem-se de que o CD chegou todo prosa para substituir os discos de vinil. Quantos anos se passaram? 25? Pois é, e o CD já era… foi trocado por algo imaterial, que é o MP3. O que há é apenas um suporte físico para se colocarem e retirarem as músicas que desejamos. Não seria esse o caminho do livro?

Acima, outro modelito…

O outro motivo diz respeito a essa mania de acharmos que só o que a gente vive ou viveu na infância, juventude – ou mesmo hoje – é que é capaz de nos trazer sensações sinestésicas, nostálgicas… Cheiro de livro, por exemplo, é algo que, sei bem, é capaz de despertar lembranças, sensações (e espirros)… rabiscar coisas ao pé da página e achar anos depois… isso é mesmo, acredito totalmente, fantástico. Mas tudo já foi vanguarda um dia, já foi novidade. Por que as novidades de agora não podem vir a trazer momentos assim?

Ok, pra esse segundo motivo, confesso que fico mais hesitante, pois poderia escrever tanto a favor quanto contra essa minha própria última pergunta… Como disse, é um ponto de virada, e, como estou pendulando, as coisas ainda estão muito instáveis…

No post de 10/7, falei sobre o mundo do consumo, tendo como referência Nova Yorque e o nosso comportamento; no post de 17/7, falei sobre a escola do futuro e disse que havia testado um e-book, um desses livros eletrônicos. Pois, para fazer então jus aos dois posts anteriores, acabei comprando um e-book (para fins de pesquisa empírica, é claro!). Darei um prazo de dois ou três meses pra ver como vou lidar com esse bichinho, se será mesmo natural, quais são as vantagens, quais as desvantagens. Aí, de repente, posso escrever sobre esse assunto de novo aqui pra dizer como está sendo a experiência, se substituí o livro de papel pelo livro eletrônico; se estou dividido entre os dois ou se o e-book virou só um tralha a mais pra juntar poeira…

Gente, esse post ficou muito grande! Se você chegou até aqui, muito obrigado. Então, não custa nada escrever alguma coisinha aí nos comentários, né?

Aquele abraço.

Nilton Cezar Tridapalli