P. Oswaldo Gomes: um homem além do seu tempo

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P. Oswaldo Gomes: um homem além do seu tempo

P. Gomes (o primeiro à direita) em colegas jesuítas em 1958. Foto: Arquivo/Colégio Medianeira.

Por Jonatan Silva

Uma neblina forte, como cortina, cobria Curitiba no final da tarde daquela segunda-feira, 16 de junho de 1958. Exatamente às 17h55 o comandante Licínio Correia Dias pediu à torre de controle do Aeroporto Afonso Pena para realizar um pouso de emergência com o Convair CV-440, da Cruzeiro do Sul. O controlador de voo, Dinei Mehl Andruski, atentando que havia outro avião pronto para decolagem na cabeceira da pista, negou o pedido. A aeronave, que partiu de Porto Alegre e fizera uma escala em Florianópolis minutos mais tarde, perdeu altitude, se chocando contra árvores – que arrancariam uma de suas asas – e caindo de dorso sobre uma figueira, cujo tronco recém-cortado foi responsável pelos maiores estragos na fuselagem.

A queda, por volta das 18h55, na região do Capão Grosso, na Colônia Muricy, em São José dos Pinhais, gravou no solo a memória do primeiro grande desastre aéreo do Paraná. O impacto mataria 18 dos 24 passageiros, dentre eles P. Oswaldo Casado Gomes – fundador e primeiro diretor do Colégio Medianeira; o senador e ministro Nereu Ramos, que assumiu a presidência da República após a morte de Getúlio Vargas, em 1954; o governador de Santa Catarina, Jorge Lacerda, que iria a São Paulo encontrar Plínio Salgado em uma reunião secreta; e o deputado federal Leoberto Leal. Os três estavam na capital catarinense para uma convenção partidária.

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O deputado federal Lerner Rodrigues, um dos primeiros a escapar da ruína metálica, quase ficara de fora do voo: perdera a noção do tempo enquanto comprava um acordeom para a filha, Maria das Graças. Lerner ainda tentou salvar os correligionários “que não atenderam aos chamados e nem deram sinal de vida”.

Naquele exato momento, começava o suplício dos sobreviventes.

Imagem dos destroços do avião que levava P. Gomes e outros passageiros. Foto: Arquivo.

Oréstio José de Souza, vereador e futuro prefeito da cidade catarinense de Santa Cecília, foi salvo porque Leoberto Leal – sentado na cauda da aeronave – estava impaciente com a demora na aterrisagem e pediu para que trocassem de lugar. Leal sentou-se ao lado de Nereu Ramos, no meio do avião, próximo a Lacerda, que estava mais à frente. Como em um gesto inesperado – e de premonição –, P. Gomes se levantou e, em pé no corredor, deu absolvição a todos. Segundos depois, o choque, fazendo com que o avião se encolhesse contra o solo.

Oréstio, o último a deixar as ferragens com vida, só conseguiu sair depois de soltar o paletó preso entre os bancos. Tentou ainda, em vão, procurar o relógio de pulso que perdera. O vereador juntou-se a outro passageiro, e andaram em direção a uma luz, que descobriram mais tarde ser o aeroporto. Cansados e muito atordoados, após um quilômetro e meio de caminhada, pararam em um sítio no meio do caminho, cuja casa serviu como abrigo contra a tempestade que já apontava no céu.

Lá, tão assustados quanto Oréstio e seu companheiro, estavam Carlos Kotowiski e Antonio Valenga, que encontraram os dois desconhecidos se aquecendo no fogo aceso em sua propriedade. Para levá-los ao hospital, os moradores pediram um táxi, que tinha como motorista o fotógrafo amador Rolf, cujo sobrenome se perdeu na História, – o primeiro a registrar imagens do acidente –, e trazia como passageiro o jornalista Chiquinho Zimmermann. Sabido que tinha um furo de reportagem nas mãos, conseguiu – graças a uma engenhosa artimanha – esconder Oréstio dos colegas, levando-o para o Hotel Ferroviário, na região central de Curitiba.

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Pouco depois, quem chegava para o resgate – segurando apenas lampiões a querosene – era recebido com gritos e gemidos. “Eles pediam para que não riscássemos fósforos”, recorda Leonardo Valenga, que fez parte da coorte – junto com seu pai Antonio – que ajudou na remoção das vítimas, e completa: “alguns estavam presos na fuselagem. Estávamos com medo de ver pedaços de gente”. O agricultor Francisco Przybycien, que à época tinha apenas quatro anos, foi um dos voluntários que cuidavam dos destroços do avião ao longo da madrugada. “Um vizinho pegou para cuidar, e à noite eu ia lá para pousar porque ele tinha medo de ficar sozinho”, disse. Todas as manhãs, pontualmente às 5h45, os amigos eram sacudidos por um barulho misterioso que tomava a carcaça do Convair CV-440. “E não tinha nada”, conta.

P. Gomes idealizou o Medianeira como um centro de aprendizagens já na década de 1950. Foto: Arquivo/Colégio Medianeira.

Nos anos 1950, Curitiba era um protótipo de metrópole. A Boca Maldita fora batizada há pouco e os cinemas do Centro – Ritz, Luz, Palácio, Ópera – eram a principal diversão da cidade. A Avenida Luiz Xavier – falsamente chamada de “a menor do mundo” – ainda era conhecida como João Pessoa. A construção de prédios de 20 andares derrubou a majestade do Edifício Garcez, que reinara até então com seus oito pavimentos. E em 1958, Curitiba recebia o primeiro telefone discado.

Uma catástrofe como aquela facilmente abalaria a população – que entre o começo e o final da década saltava de 180 mil para 365 mil pessoas.  Para conter tanta curiosidade, donos de bancas e leitores faziam fila em frente à sede da Tribuna do Paraná para comprar a edição do dia 17 de junho – cuja tiragem bateu os 26 mil exemplares, um recorde para o próprio jornal. Sem nenhuma tragédia, uma cena parecida só seria vista 51 anos mais tarde – com a polêmica capa de 27 de abril – que estampava a disputa entre Coritiba e Atlético.

A Gazeta do Povo lamentava: “Fatalidade enluta a nação”. Zimmermann cobriu o “pavoroso sinistro aviatório” durante 15 horas para O Estado do Paraná, que trazia naquela edição os depoimentos exclusivos de Oréstio. O Diário do Paraná, que pertencia a Assis Chateaubriand – magnata das comunicações – e à família Stresser, publicou uma edição extra na terça-feira, cuja primeira página era dedicada ao acidente. “Leva o Paraná seu adeus às vítimas da catástrofe”, lia-se a manchete em destaque, e mais abaixo: “Juscelino profundamente consternado exalta as figuras de Nereu, Lacerda e Leoberto”.

O Estado de S. Paulo destacava o número de mortos, que à época acreditava-se ser 20. A Folha da Manhã também chama atenção para as vítimas: “Vinte mortos em acidente de aviação ocorrido próximo à capital paranaense”. A soma fora fechada contando que o prefeito de Porto União (SC), Lauro Müeller Soares e sua esposa Antonieta, estava entre as vítimas. O casal foi salvo, segundo o jornalista Dante Mendonça, porque D. Antonieta pediu para que ficassem em Florianópolis para que pudessem comprar rendas e bordados da Lagoa da Conceição.

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Oswaldo Gomes trazia consigo na bagagem uma estátua – feita em latão – de Nossa Senhora Medianeira, santa de quem era devoto. A queda entortou a imagem, que permaneceu esquecida até 1992, quando foi encontrada pelo P. Dionysio Seibel e levada para o túmulo do sacerdote, no Colégio Medianeira, em frente ao bosque do Ensino Fundamental I. “Numa noite, sem sono, repassei livros, documentos e objetos da Residência Jesuíta. Um pacote, envolto em um pano marrom, me chamou a atenção”, escreveu cinco anos depois. O mistério acabou quando, em suas mãos, “apareceu uma estatueta retorcida” como “símbolo do seu ideal”.

Meses após a tragédia, P. Valério Alberton – engenheiro civil que projetou e supervisionou as obras do Medianeira, permanecendo no Colégio até 1961 – ressaltou a dedicação do colega e sua relação com a comunidade educativa. “O que imortaliza o Padre Gomes é a sua ação pedagógica”, afirmou à revista Notícias para os nossos amigos.

P. Oswaldo Gomes foi um entusiasta da educação ao logo de seus 39 anos. Nascido em Porto Alegre, em 6 de setembro de 1918, foi aluno do Colégio Anchieta e chegou a cursar Direito, carreira que abandonou para ingressar na Companhia de Jesus, em 1941.

Desde o início do século XXI, parte da trajetória de P. Gomes é tombada pelo estado: o Seminário São José, na região que hoje é município de Pereci Novo, a 70 quilômetros da capital, tornou-se Patrimônio Histórico e Cultural do Rio Grande do Sul. Com seus 5 mil metros quadrados, e em formato de agá, o casarão começou a ser construído em 1901 – projeto do alemão Johann Gruenewald e execução de polonês José Frast – e só foi finalizado três décadas depois sobre o terreno adquirido pelos jesuítas em 1895, e que seria vendido à iniciativa privada um século mais tarde, até passar ao controle do governo gaúcho em 2006.

“Tudo para a glória de Deus e felicidade do Paraná”, declarou em seu discurso – que atestava sua inclinação natural à oratória –, para finalizar: “venceram a justiça da História e a força amizade”.

Entre 1945 e 1947, estudou em São Leopoldo e Salvador do Sul. No ano seguinte, embarcaria para a cidade litorânea de Woodstock, em Maryland, nos Estados Unidos, onde estudaria Teologia e seria ordenado padre em 1952. A Woodstock de P. Gomes não é mesma que quase abraçou a contracultura no verão de 1969 – as duas Woodstock estão distantes 540 quilômetros (e os moradores do estado de Nova York não aceitaram o festival, que se mudou para a pequena Bethel, mas manteve o nome) – e, ao contrário, é uma região conhecida pela sua densidade estudantil, cujo investimento por aluno é dez vezes maior que em qualquer outra localidade norte-americana.

Ainda que jovem, o sacerdote já enfrentava sérios problemas circulatórios – que precisavam ser tratados no Brasil e forçaram seu retorno em 1953. Um ano mais tarde, P. Gomes viria a Curitiba pela primeira vez – a tempo de lançar a pedra fundamental do Colégio Medianeira, na manhã do dia 31 de maio, sob o escrutínio de representantes dos colégios Catarinense e São Luís, do governador Bento Munhoz da Rocha e autoridades da Companhia de Jesus –, porém, apenas em 1956 faria da capital paranaense a sua residência fixa, sendo nomeado Superior do Medianeira em 28 de dezembro. “Tudo para a glória de Deus e felicidade do Paraná”, declarou em seu discurso – que atestava sua inclinação natural à oratória –, para finalizar: “venceram a justiça da História e a força amizade”.

Em Curitiba, o diretor do Medianeira seria também professor de ensino catequético, Religião e Filosofia nos colégios Estadual do Paraná e Santa Maria e na Faculdade Católica de Direito, onde, segundo P. Inácio Spohr (jesuíta responsável por recontar muitas das vidas de seus colegas de ordem), elaborou o estatuto da instituição “em tempo recorde”.

Imagem de Nossa Senhora Medianeira que P. Gomes trazia consigo. Foto: Wagner Roger.

O primeiro aluno matriculado no Medianeira foi o advogado Luiz Aberto Pereira Paixão. A família, que era amiga dos padres Alberton e Otaviano Marchi – dupla habitué de rodas de chimarrão e almoços de domingo com arroz carreteiro (prato predileto do sacerdote engenheiro) no número 487 de uma rua ainda sem nome – logo ficou sabendo da escola que se instalava nas proximidades. A movimentação de caminhões e máquinas, algo incomum para o Guabirotuba naquela época – quando a Avenida Torres era pouco mais que uma estrada de terra –, tiravam o sossego do bairro.

Uma segunda-feira cedo, D. Anaides levou o filho para que fizesse a matrícula. “Quando chegamos, um irmão jesuíta disse que ainda não estavam abertas as inscrições”, recorda o advogado, aos 68 anos, orgulhoso de ter os quatro filhos no rol de sempre-alunos do Colégio. “Minha mãe comentou que foi o P. Otaviano quem a avisara de que poderia me matricular”, completa. O sujeito, muito rápido, pegou uma caderneta e anotou nomes e endereço. “Assim que chegarem os formulários eu passo as informações”, disse, “mas a senhora vai ter que trazer seu filho e assinar a matrícula”.

Quando o Medianeira não passava de um canteiro de obras, com algumas paredes erguidas e centenas de homens trabalhando, Paixão já era estudante confirmado – um dos 188 que ingressariam na instituição em 1957.

O primeiro prédio a ser construído – depois da Residência Jesuíta – foi o que abriga hoje o Fundamental I. Os trabalhos prosseguiam. O som do tijolo sendo assentado se misturava ao vozerio das crianças, e P. Gomes iniciava a sua escola, circulando atento pelo colégio que ganhava vida. “Como eu era muito jovem”, recorda Carlos Eduardo Wendler, que fez parte da primeira turma, “não tinha muito contato, mas o P. Gomes não ficava trancado na sua sala. Andava e andava. Tinha mil coisas para fazer pelo colégio”.

Professores e estudantes eram testemunhas do empenho em fazer daquela “mata virgem” uma instituição que fosse referência em aprendizagem em Curitiba. Apesar de todos os afazeres que tomavam conta do seu dia, P. Oswaldo não conseguia dissimular qualquer casmurrice. O otorrinolaringologista Marcos Mocellin lembra de P. Gomes como um homem “alegre e simpático”, porém, rígido e muito disciplinado. O médico, cujo consultório está encravado na República Argentina, não disfarça a idade ao conversar com os mais jovens.  “Quando um aluno do Medianeira vem aqui”, comenta, segurando o riso, “pergunto sobre o túmulo e digo: ‘eu conheci aquele homem. Olha como eu sou velho’”. E solta uma gargalhada de satisfação.

Mocelin: “Quando um aluno do Medianeira vem aqui pergunto sobre o túmulo e digo: ‘eu conheci aquele homem. Olha como eu sou velho’”.

Não fosse a longa batina preta, que lhe cobria até os pés, P. Gomes divergiria completamente da imagem que criamos de um presbítero. Caçoísta inveterado, apesar do seu tom barítono com sotaque levemente gaúcho, era comum vê-lo sentado e rindo com as crianças que encontrava pelo pátio.

Para o publicitário, escritor e compositor Paulo Vítola, que também fez parte da Turma Pioneira do Colégio, P. Oswaldo Gomes encarnou o personagem de líder da comunidade que se formava. “Ele era muito enérgico e firme em suas convicções” recorda, e assume um tom jocoso:  “mas sabia aplicar o bom humor quando era hora”.

Vítola – que hoje ocupa a cadeira 25 da Academia Paranaense de Letras, a mesma que pertenceu a Bento Munhoz da Rocha – chegou ao Medianeira aos dez anos após estudar o primário no Instituto de Educação do Paraná. Para entrar no Colégio, fez um acordo com o diretor. Em vez de ingressar diretamente na 5ª série, o menino precisaria fazer um laboratório. Seria necessário repetir a 4ª série ao longo do primeiro semestre e, se o desempenho fosse bom, permaneceria no Colégio. Desafio aceito. “No primeiro dia do segundo semestre, o P. Gomes me chamou e cumpriu a promessa”, relembra. Ele era um homem de palavra. Paulo só deixaria o Medianeira em 1965, ano em que terminou o Ensino Médio.

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Todos os dias Paulo precisava andar algumas quadras para pegar o ônibus que o traria ao Medianeira. Saía de sua casa, na Padre Agostinho, perto da Praça da Ucrânia, e caminhava pelo chão de terra até chegar à única via com calçamento na época. Parado na Princesa Izabel, o menino fazia como a maioria das crianças: tirava a lama e a poeira dos sapatos e embarcava no ônibus Bandeira Amarela, dirigido pelo Seu Luís. Naquela patota iam, com o futuro acadêmico, o irmão João Carlos, o primo Mário Müller (morto em 2017, pouco antes dos 70 anos, o primeiro da Turma Pioneira a falecer) e os irmãos Clemente e Paulo Heliodoro Consentino.

“O que hoje é perto”, escreveu Vítola em 1997, para o livro de memórias do Colégio, Valores, princípios e muitas lembranças, “naquele tempo era longe. O Medianeira era longe. Ficava para lá do Prado Velho, no Guabirotuba, num lugar conhecido como Corte Branco, perto do caminho do Uberaba. Quer dizer: do outro lado da cidade”.

O Bigorrilho – um dos poucos bairros de Curitiba a ser (quase) mais conhecido pelo apelido, Champagnat, que pelo próprio nome – era ainda um local pouco ocupado e distante. A viagem que hoje leva 30 minutos, em 1958 tomava uma hora e passava por diversos bairros da região central. O itinerário dessa aula de Geografia a bordo do Bandeira Amarela incluía no caminho a Usina de Força e Luz, o Paiol de Pólvora – que na década de 1970 se transformou em teatro e foi inaugurado com um show de Vinícius de Moraes, Toquinho e Trio Mocotó –, e indústrias como a Matte Leão e a Fiat Lux.

A recompensa para o esforço era andar na lambreta do P. Gomes.

Diários escritos por P. Gomes. Esq.: detalhe de suas impressões sobre o lançamento da pedra fundamental. Dir.: observações sobre o terreno em que construiria sua escola. Foto: Reprodução/Arquivo Colégio Medianeira.

As Lambrettas e as Vespas eram novidades no Brasil na metade dos anos 1950. Criadas duas décadas antes, nos anos seguintes ao fim da Segunda Guerra Mundial, as motonetas, já em sua segunda geração, se transformaram em coqueluche, principalmente, entre os jovens. Era uma Vespa que P. Oswaldo Gomes, e os outros jesuítas que residiam no Medianeira, usava quando precisava se locomover em grandes distâncias. E a moto causava um grande alvoroço entre os alunos, que disputavam um passeio na companhia do diretor.

Para escolher o garupa, P. Gomes usava uma técnica muito simples: quem tirava as melhores notas dava uma volta no pátio do colégio. O contrato era psicológico. “Aquilo era o máximo”, Vítola faz uma pausa dramática, e comenta: “um padre de batina, com um metro e setenta, pilotando uma lambreta”. Mais importante que a nota em si, o que realmente dava gosto às crianças era partilhar daquele banco de couro. O trajeto, uns mínimos metros dentro do terreno, se tornava sinônimo de aventura e orgulho. “E eu tive essa honra”, recorda o publicitário.

Esse contato com os estudantes – entremeado pelo humor e pela imagem atípica de um sacerdote – não o impedia de ser uma voz firme na busca de uma igreja progressista e uma educação forte. P. Gomes entrava na sala segurando de braçada uma pilha de boletins. Lia as notas, uma a uma. Até chegar a um aluno cujo desempenho não fazia parte daquilo que ele próprio chamava de “aluno do Medianeira”. O sangue gaúcho aflorava e o sotaque ficava mais pesado.

“Vocês sabem”, dizia enfatizando os ês, “que eu gosto de guri meio levado da breca e de piá de cabelo engalfinhado”. A sala estava em silêncio esperando o resto da bronca, que seria menos conciliador. “Agora, cinco em caligrafia? O que acontece, tchê? Andas escrevendo com caneta de taquara? E cinco em comportamento? Isto é porque nem sabes fazer bagunça direito”. Os olhos, escondidos atrás dos óculos redondos, passavam a sala em revista. “Bagunça, tu tens que fazer na hora do recreio. Senão, já sabes: vem bomba no boletim”.

 P. Gomes lia as notas, uma a uma. nas turmas. Até chegar a um aluno cujo desempenho não fazia parte daquilo que ele próprio chamava de “aluno do Medianeira”. O sangue gaúcho aflorava e o sotaque ficava mais pesado.

Lauro Holzmann se lembra com clareza das broncas do diretor. Além do ônibus Bandeira Amarela, o Medianeira dispunha de veículos com outras duas cores: vermelho e azul. Para evitar que as crianças tomassem o transporte errado, os alunos recebiam pastilhas com as cores do ônibus que os levariam para casa. Holzmann embarcava no Bandeira Vermelha.

Uma manhã, distraído na aula, Lauro começou a desenhar sobre a superfície rubra de sua pastilha e não notou que P. Gomes acabara de entrar na sala. “Eu fiz besteira”, disse aos risos, “mas para mim era algo inocente. Ele chegou e levei um ‘puxão de orelha’ educativo”. Holzmann, a quem P. Oswaldo contara história de suas viagens pelo mundo, ainda se recorda do diretor como “alguém sensacional e muito admirado”.

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Até 1955, o Prado Velho abrigou o Jockey Club do Paraná, transferido para o local – onde hoje é a PUCPR – em 1899. A imensidão de gramados – do então Prado do Gabirotuba – servira de decolagem e pouso para o primeiro avião a levantar voo na cidade, em 1914. Quando o Jockey foi levado para o Tarumã – por isso o nome Prado Velho, já que Curitiba ganhava, então, um novo espaço para corridas de cavalo – os campos permaneceram (a Tribuna do Hipódromo do Guabirotuba está preservada e abriga atualmente o Museu Universitário). Durante os dias de inverno rigoroso, a grama se cobria de gelo, formando um grande tapete branco. “Sempre geava e era impossível ficar nos campos”, recorda Jorge Victor Bacila Agottani, cuja memória de P. Oswaldo Gomes remete às vezes em que o viu flanando pelo Colégio.

Paixão, que chegara com os pais da cidade de Guaíba, no Rio Grande do Sul, em 1953, acompanhou de perto a transformação do bairro. O pai, Seu Pantaleão, era topógrafo e estava envolvido na construção da BR-116 desde a sua nascente no estado gaúcho, guiando os rumos da estrada até desembocar em Curitiba.

A primeira casa no Gabirotuba pertenceu à sua família e foi o patriarca o responsável pelo “desenho” das ruas e pelas calçadas largas. “’Vamos perder terreno’, diziam os donos dos lotes”, recorda Paixão aos risos, que, de repente, emenda com a voz do pai: “’mas vai ganhar qualidade de vida’”.

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No dia em que P. Oswaldo Gomes morreu máquinas abriam ruas no Guabirotuba – criado por decreto 11 anos antes. As obras, que faziam parte do projeto de urbanização do bairro – um quadrilátero cercado pelas avenidas Linha Verde e Comendador Franco e pelas ruas Canal Belém e José Reitmeyer –, precisaram ser interrompidas por conta da chuva que caía.

Pouco tempo depois, a notícia do desastre aéreo se alastrava e o lugar em que estavam paradas escavadeiras passou a ser conhecido pelo nome do fundador do Medianeira. Uma quadra para baixo, uma nova rua surgia e homenageava o deputado Leoberto Leal, que tinha como primeiro cruzamento a rua Senador Nereu Ramos; mais abaixo, o governador de Santa Catarina também fora imortalizado com um CEP do Guabirotuba.

P. Otaviano Marchi durante o plantio do pinheiro em homenagem ao P. Gomes. Foto: Arquivo/ Colégio Medianeira.

“Vocês não têm aula hoje. O P. Gomes morreu ontem em um acidente de avião”.

O pai de Vítola anunciou o recesso escolar depois de escutar a notícia no rádio da família. Todas as manhãs, antes de sair para trabalhar, ligava o aparelhinho e ouvia o que se passava no Brasil e no mundo. Repórteres de todo o país se amontoavam no Capão Grosso e as estações cobriam o acidente com avidez. Holzmann soube da morte de P. Gomes em uma dessas coberturas da imprensa. Era praticamente impossível fugir das notícias sobre o acidente. “A minha mãe conta que eu chorei por três dias”, recorda,“eu fecho os olhos e vejo o rosto dele”.

Ainda chovia bastante, o que dava “uma impressão extremamente comovente” à ocasião. Em pouco tempo a capela do Colégio foi ficando abarrotada de gente: famílias, estudantes, professores, autoridades e pessoas que se sensibilizaram com a tragédia. No intervalo entre a chegada do corpo de P. Oswaldo Gomes e o velório, os jesuítas conseguiram autorização para que o diretor fosse enterrado no Medianeira – onde permaneceu até que fosse transferido para o Cemitério dos Jesuítas, junto ao Santuário do Sagrado Coração de Jesus, em São Leopoldo, em 2017.

Como último gesto de carinho e respeito àquele que fundara o Colégio, os alunos estavam todos uniformizados, postados respeitosamente próximos ao caixão, esperando que a chuva acalmasse e o enterro pudesse ser providenciado. Quando estiou, todos se reuniram em torno do túmulo. Sem qualquer combinado, a Turma Pioneira acompanhou o cortejo – ao lado do esquife – que saía da capela e atravessava o bosque. “Nada disso estava no programa”, relembra Vítola, “só imaginávamos como poderíamos homenageá-lo”.

P. Gomes e Madre Bernadete durante as celebrações do Dia da Árvore em 1957. Foto: Arquivo/Colégio Medianeira.

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As aulas recomeçaram e o sol havia tomado o seu lugar no céu. P. Otaviano Marchi – que assumiria a direção do Colégio entre 1959 e 1967 e, novamente, de 1969 a 1972 – reuniu todos os estudantes e professores em uma área em frente ao bosque, próximo ao túmulo do P. Gomes. Dias antes, fora construído uma espécie de muro de pedra em formato de triângulo. Ali seria plantado um pinheiro como símbolo da presença e do legado de P. Oswaldo.

Passadas seis décadas, o pinheiro se tornou ponto de encontro para pais, professores e estudantes. Os centros de Artes e de Esportes se reúnem ali para atividades com as famílias – algo que faria P. Gomes sorrir com orgulho.

No dia 23 de junho foi realizada a missa de sétimo dia, após o final das aulas da manhã. A Capela do Colégio estava apinhada. Um silêncio de reverência tomava o ambiente. “Muitos pais e famílias nos assistiram”, escreveu no diário da Residência Jesuíta P. Orlando Allgayer, presidente da celebração. O sacerdote estava no Medianeira apenas por uns dias, e devia substituir P. Gomes nas missas de domingo durante a viagem. Com a tragédia, P. Allgayer “muda-se definitivamente para o Colégio” e assume as aulas no Medianeira e na Faculdade Católica de Direito, que antes estavam a cargo do colega falecido. P. Orlando permaneceu em Curitiba até 1965, quando foi transferido para São Leopoldo.

Dias após a tragédia, fora construído uma espécie de muro de pedra em formato de triângulo. Ali seria plantado um pinheiro como símbolo da presença e do legado de P. Oswaldo. Passadas seis décadas, o pinheiro se tornou ponto de encontro para pais, professores e estudantes. 

A partir daquele momento, P. Oswaldo Gomes e sua missão pedagógica, que o fazia um homem para além do seu tempo, entravam para a história. “Eu penso que ele não morreu”, reflete Paixão com a voz um tanto embargada, “certas pessoas deixam suas ideias e seus exemplos”.

No centenário de nascimento – e 60 anos da morte – de P. Oswaldo Gomes, o Colégio Nossa Senhora Medianeira agradece à comunidade curitibana e paranaense, e reforça o seu compromisso com uma educação de qualidade, atualizando a proposta educativa da Companhia de Jesus sob o olhar dos novos tempos.

P. Gomes em seu gabinete. Foto: Arquivo/Colégio Medianeira.

By | 2018-10-19T10:16:54+00:00 outubro 19th, 2018|Perfil|Comentários desativados em P. Oswaldo Gomes: um homem além do seu tempo