“Grande parte da cidade foi conquistada por esse exército neutro que não é exército: a indiferença. Se queres sobreviver colocas a tua coragem num saco de plástico e aguardas.” (trecho de A máquina de Joseph Walser, de Gonçalo M. Tavares)

Bois indo para o abate não se revoltam. Como são animais irracionais, nós os enganamos facilmente. Uma das coisas que nos distinguem dos animais irracionais é a nossa consciência da morte. Também por isso, criamos cultura, temos sonhos, traçamos projetos. Nós, ao menos a maioria de nós, queremos deixar rastros, marcas da nossa passagem pelo mundo.

Súbito, o susto. Como se estalassem dedos perto de nossa orelha, o despertar de uma hipnose. Acorda-se no volante de um automóvel (às vezes motorista solitário dirigindo um desses monstros 4 por 4 em pleno centro da cidade), movendo-se a 10 km/h. Na frente, uma fila de iguais a perder de vista. No retrovisor, o mesmo cortejo modorrento de metal bem comportado.

Diferentes dos bois – que não têm consciência do destino que os espera –, não nos deixamos lograr facilmente com a fila do abate. Por isso, inventamos mil modos de enfrentar essa fila que vão além da simples espera: a esperança é uma delas. Esperar pode ser diferente de ter esperança. Em português, a palavra é a mesma (mas eu espero você às 2h é diferente de eu espero um futuro melhor, embora o verbo seja o mesmo), o que não acontece no inglês (I wait x I hope), no italiano (Io aspetto x Io spero), no francês (J’attends x J’espère )… Enquanto esperamos dentro do carro, o que esperamos na vida? Para nos distrairmos – enquanto a única coisa coletiva que conseguimos tecer é uma teia de congestionamentos – podemos ligar o rádio do carro. Com esse som ambiente, eludimos o som do ambiente externo. E a neurastenia da cidade sucumbe ao frenesi do som do rádio. Neurastenia e frenesi estranhamente se anulam. O estalar de dedos perto da nossa orelha foi frágil. Já adormecemos de novo, bovinos.

E nem mais nos damos conta do atrito áspero que acontece do choque entre o som ambiente do rádio e o som do ambiente externo, da cidade que nos vê através de um vidro enegrecido, bolha confortável. Nem som de rádio, nem som da cidade entra direito por ouvidos e olhos. E naturalizamos o trágico absurdo, até porque não prestamos atenção a ele: os últimos minutos que antecedem o horário eleitoral gratuito são preenchidos com propagandas de automóveis, nos mandando correr (mas como, com esse trânsito?) pra aproveitar as ofertas imperdíveis! Uma outra me diz que eu posso entrar porque o mundo é meu (mas como, se o que vejo através do vidro fumê – sempre fechado, que não sou bobo – é um mundo descolorido, com balinhas penduradas no espelho do carro, um assaltante no beco, gambiarras horríveis nos postes acinzentando a paisagem). Outra ainda canta um jingle infantil e quer me empurrar alguma coisa de que não me lembro mais à base de umas rimas e um bom humor de caráter duvidoso…

O tempo do espaço publicitário acaba e chega a hora do espaço eleitoral gratuito (mas como, tem diferença?). Da mesma forma que a publicidade me mandou comprar algo, ou me ofereceu o mundo ou me cantou uma musiquinha infantil, contrastando com o mundo que eu via lá fora, a avalanche de candidatos, indistinguíveis uns dos outros, tenta fazer o mesmo.

Tudo é indistinguível, tudo é lugar comum. Eu, inclusive.

Amortecido, não reparei nem que, no exato momento em que um candidato fazia um protesto no rádio contra o subemprego, uma jovenzinha pobre tremulava feito um robozinho a bandeira desse mesmo sujeito, ali na esquina. Bocejava, arcava as costas doídas por passar a tarde toda ali a segurar uma bandeira. Um exército de candidatos prontos para esbravejar contra o subemprego pagava alguns reais temporários e, quiçá, um sanduíche para pessoas pobres, marginalizadas, cuja esperança não tem horizonte que ultrapasse o 3 de outubro.

Mas eu, amortecido, nem reparei. Só mimetizei o ato dela e bocejei também. Minha mais nobre esperança era esperar o trânsito fluir, era esperar que alguém sincronizasse os semáforos da cidade, era esperar que, ao dobrar à direita, a rua estivesse livre. Era esperar. Desesperando.

E a utopia não deu um pio.

Cezar Tridapalli