Eu já vinha com a ideia dessa comparação que eu vou fazer desde julho, mas não tenho muita noção de como esse texto vai acabar. Ou seja: tenho o assunto, mas vamos ver onde eu levo a minha tese me leva… se é que você me entende.

Eu estava em uma cidade do interior do Brasil, passeando com minha mulher e minha filha, olhando uma loja aqui, outra loja ali, outra acolá. E mais outra loja acolá, outra ali, outra aqui. De repente, tive uma epifania (uma não muito difícil de ter, é verdade): “essa cidade não tem uma livraria? Como é que o povo daqui faz pra ler livros? São quase cem mil pessoas que vivem aqui”.

E aí é que veio a vontade de fazer a comparação. Se for disparatada, como comparar o vermelho com o pé de uma mesa, por favor, me avise aí nos comentários. Mas a minha pergunta é mais ou menos essa aqui: por que há tantas lojas de sapato e tão poucas lojas de livros? Poderia falar de outros produtos, mas vou ficar na comparação entre os calçados e os livros.

Eu não sei quantos pares de sapato você tem em casa. Mas, entre chinelos, tênis para exercícios físicos, sapatos, sandálias, botas etc, concorda que dez pares de calçado acabam sendo um número razoável? Pra não dizer que eu esteja de má vontade, podemos pensar em quinze pares de sapato em casa? Deixemos os extremos de lado, tanto os que vivem à míngua como os calçadófilos ou sapatólatras, que têm lá seus 30, 40, 100 pares.

Se, numa cidade com 100 mil habitantes, há uma loja de calçados ao lado da outra e elas conseguem levar a vida sem ir à falência, a dedução que me leva a pensar que as pessoas não têm 15 livros em casa tem alguma lógica ou é uma ofensa ao silogismo e Aristóteles acaba de estalar a palma da mão na testa?

Sim, os calçados se desgastam, os livros duram mais, o que faz com que o objeto de papel seja um bem mais durável. Mas, se o livro é comprado e lido em, digamos, 20 dias, as pessoas, se leitoras fossem, não teriam mais livros em casa do que pares de sapato? Isso não faria com que tivéssemos mais lojas de livros do que de sapatos, ou que pelo menos o número se equivalesse? Se, ainda especulando, pegarmos um leitor que não seja lá dos mais contumazes, ele não vai comprar livros a cada 20 dias. Compra um, lê em 20 dias, fica vários dias sem ler outro. Mesmo assim, nesse ritmo, em alguns meses e anos ele teria bem mais do que 15 livros.

Ah, mas o livro é caro. Caro? Um romance custa, em média, 35 reais, ao passo que a maioria dos calçados custa muito mais do que isso, no mínimo o dobro. Então, essa questão do preço não parece a melhor justificativa. Ah, mas há bibliotecas que emprestam livros e não há calçadotecas a emprestar sapatos. Sei bem que um índice bastante grande de cidades pequenas e médias no Brasil não possui bibliotecas.

Espero que esteja ficando claro que eu não pretendo criar um movimento contra o uso dos sapatos.

Só fico um pouco admirado com uma cidade com 100 mil habitantes que não tem um lugar aparente, visível no centro da cidade onde se possam comprar livros. E sei bem que essa é uma parte que representa um bom tanto do todo. Fosse uma exceção e eu não estaria aqui tratando desse assunto. Mas, se não quisermos falar de cidades pequenas, vamos pensar em uma cidade como Curitiba? Quantas livrarias temos? Sou capaz de dizer uma a uma. Será que eu conseguiria dizer quantas e quais lojas de sapatos temos? Jamais.

Ah, outra hipótese para justificar a vitória esmagadora dos sapatos: eles são úteis, são necessários ao dia a dia.

Bem, se concordarmos com essa tese, aí já fica explícita a visão que temos dos livros. São eles desnecessários?

Eles são exclusividade de uma minoria e isso ficará para sempre assim, ao passo que calçados calçam a todos? Há poucas livrarias porque as pessoas leem pouco ou as pessoas leem pouco porque há poucas livrarias, bibliotecas, família e professores leitores? 64% dos paranaenses não são capazes de citar o nome de um mísero (ou miserável) autor paranaense. Será que 64% de usuários de calçado não saberiam citar uma marca de tênis? Acho que começo a comparar o vermelho com o pé da mesa. Melhor parar.

Enfim, comecei esse texto dizendo que não sabia como ele iria acabar. Estou chegando ao fim e ainda não sei como acabar com ele. São só perguntas, perguntas que, cambaleantes, não sabem o caminho de casa, não sabem onde pingar um ponto final.

Melhor ficar no caminho, com muitas pedras no meio dele.

Aquele abraço.

Cezar Tridapalli

Em tempo: caso as digressões acima tenham ficado um amontoado de noções difusas e confusas, ao menos tento compensar o leitor com as notícias que seguem:

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