Resiliência humana: isolamento social versus pandemia viral

O surgimento de um novo vírus altamente contagioso e os reflexos da quarentena à qual a sociedade contemporânea está exposta

15/04/2020 Notícias| Coronavírus, Saúde Mental

A velha máxima para a escrita de um bom texto é a fuga ao senso comum. Mas, e como evitar o universo exterior, quando tudo o que diz respeito à manutenção da nossa própria existência tem relação inversamente proporcional ao afastamento social?

Neste momento de quarentena, decorrente da ameaça relativa a uma pandemia global, a qual, segundo experiência em outros países – além da concretude de dados provindos dos principais órgãos de saúde do Brasil e do mundo –, tem potencialidade de ser atenuada mediante o isolamento coletivo, destacam-se aspectos singulares da existência humana.

O novo Coronavírus impõe o reordenamento no formato de toda uma estrutura pré-condicionada. A contemporaneidade tem bases numa tessitura simbólica, composta por um todo cheio de significado: fatores econômicos, sociais, políticos, ecológicos e tecnológicos que constituem, de forma sinérgica, a natureza da sociedade.

Porque somos seres sociais, o impacto das alterações na rotina diária de vida, incluindo trabalho, estudos e lazer, tem reflexo determinante na nossa forma de conceber o mundo. O dia a dia, na forma como até então conhecemos, vem passando por um processo de mudança gradual. E essa transformação reverbera de forma não silenciosa, mundo afora.

Nesse cenário, o aspecto individual, que diz respeito à singularidade dos sujeitos, é perpassado pelas particularidades e regido por uma universalidade concernente ao social.

 

Covid-19

De repente: um vírus com alto potencial parasita de multiplicação a partir da hospedagem no organismo humano, surge. Sua propagação revela caráter infeccioso elevado. E a simplicidade da sua disseminação promove um movimento de reclusão das pessoas em suas casas.

Vírus são seres muito pequenos e simples, formados basicamente por uma cápsula de proteínas e gorduras preenchida por um pedaço curtinho de material genético. São parasitas obrigatórios, justamente por não possuírem células necessitam invadi-las, para reproduzir-se e garantir a continuidade de sua vida.

O Covid-19 (coronavirus disease 2019), representante mais recente da família viral dos Coronavírus (CoV), é o responsável pela pandemia com a qual lidamos agora. Das 7 linhagens conhecidas de CoV, 4 são quase inofensivas (a classificação mais aceita foi idealizada pelo biólogo David Baltimore, conforme o sistema de moléculas que rege o armazenamento de informação genética em cada vírus). Além de também serem responsáveis por resfriados comuns, junto com centenas de vírus de outros tipos, há o registro de mais epidemias respiratórias causadas pelo conglomerado viral em outros momentos da história, tais como a Sars, em 2002, e a Mers (2012).

A forma de atuação do novo Coronavírus se dá a partir do acesso às mucosas do nariz, da boca ou dos olhos. A presença do vírus suspenso no ar, em gotículas de saliva, ou sobre as mãos, posteriormente levadas ao rosto, permite que o Covid-19 se aloje estrategicamente no corpo humano. Uma vez incorporado, o vírus atua de forma a transformar as células em fábricas copiadoras das proteínas usadas na montagem de cápsulas de Coronavírus. Assim, a célula morre, pois não consegue mais fabricar as proteínas para sua própria subsistência.

Casos de Covid-19 podem começar e terminar logo na garganta, com o vírus eliminado pelo sistema imunológico e com sintomas leves: tosse seca, febre baixa e dor de cabeça. Em outros momentos, o quadro evolui, pois o vírus desce para os pulmões, agravando o caso. A resposta do organismo: vasos sanguíneos dilatados para fácil acesso dos glóbulos brancos ao pulmão, causando dor e inchaço. Se não for controlada, a situação complica o processo de troca de gases com o ambiente, levando à insuficiência respiratória.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) alerta para os sintomas mais comuns: febre, cansaço e tosse seca. Também pode haver dores, congestão nasal, coriza, dor de garganta ou diarreia. Em 80% dos casos, a manifestação viral é leve, semelhante a uma gripe comum, causando um mal-estar generalizado, mas sem complicações.

Não há vacina para prevenir o Coronavírus. Para proteção, bem como buscando evitar a propagação da doença, a OMS orienta: lavar as mãos com água e sabão frequentemente, ou higienizá-las com álcool em gel; cobrir o nariz e a boca com o cotovelo, ou com um lenço descartável, ao tossir e espirrar; evitar contato próximo, mantendo no mínimo um metro de distância das outras pessoas – sobretudo aquelas que apresentem qualquer sintoma de gripe; ficar em casa, isolado daqueles que dividem o ambiente doméstico, caso apresente sintomas da doença. Além disso, é fundamental não tocar os olhos, nariz ou boca sem estar com as mãos limpas.

 

O ser humano e o tempo de reclusão

Contrariando a estrutura social já sedimentada no mundo moderno, o novo Coronavírus estabelece uma outra dinâmica em nossas vidas. Perante o risco de contaminação da população, o isolamento em casa se tornou a chave para a atuação da OMS.

A principal indicação de prevenção rompe com um formato interacional, o qual não pode ser substituído apenas pela conectividade. A falta de convívio real, presencialmente, gera consequências as quais o virtual, em si, não dá conta. Estresse, incerteza e medo são sensações que emergem a superfície. As consequências psicológicas e mentais referentes ao período atípico pelo qual passamos, podem ser identificadas e atenuadas mesmo ainda estando em meio à pandemia.

O Departamento de Saúde Mental da OMS publicou uma série de dicas sobre como atravessar esse momento com serenidade. Reiterando que as noções mais eficazes contra o Coronavírus englobam o isolamento social (quarentena), cuidados básicos com a higiene (lavagem das mãos, uso do álcool em gel e limpeza de itens e locais potencialmente expostos) e atenção para com o próximo. Cada qual deve fazer a sua parte e, de forma individual e isolada, atuaremos no coletivo.

Porém, os cuidados consigo próprio, considerando a singularidade e retomando a particularidade humana à qual estamos vinculados – e não apenas no que diz respeito ao todo dos processos de limpeza e higienização, bem como da saúde física global –, são de fundamental importância num momento como este. Portanto, a saúde se torna imprescindível.

 

“Mens sana in corpore sano”

O nível da qualidade de vida emocional, bem como a capacidade de apreciação da vida e o equilíbrio rumo à resiliência psicológica figura como uma condição mental saudável. Mais do que fazer referência de ordem psicológica, a expressão “saúde mental” designa a condição cognitiva diária do ser humano.

A Organização Mundial da Saúde alega não haver definição oficial para o termo saúde mental. Há subjetividade em meio às diferentes culturas no mundo. E é nesse sentido que a pandemia de Coronavírus unifica a percepção sobre o arranjo social deste século XXI. Estamos aproximados ao passo da reclusão de cada ser em sua casa. Neste momento, a universalidade do modo de agir diz respeito a todos os humanos. Mas, como suprir as necessidades particulares de cada um em detrimento da singularidade dos seres?

Meses atrás não se imaginava o cenário atual. E a sociedade global possui capacidade organizativa para atravessar o momento. Mas essa demanda tem desdobramentos que implicam nas mais diversas áreas.

Nesse sentido, o tema da saúde mental é potencialmente valoroso. A influência de uma pandemia global na vida em sociedade desperta emoções diversas. Submetidos à quarentena, a sensação de solidão avança como imperativo de vida. Uma rotina intensa e multiatarefada desacelerando. O dia a dia de adultos e crianças transformado, com hábitos sendo ressignificados. Tudo isso têm impacto decisivo nas formas de sentir. A concepção de mundo do ser humano, quando modificada, gera, no mínimo, desconforto.

De forma geral, somos impactados grupalmente, mas cada indivíduo sente de maneira diversa. Por isso, neste momento, é fundamental adotarmos a postura mais prática possível. Todos os dias muitos cuidados devem ser tomados. E isso ultrapassa a essencialidade de lavarmos as mãos com frequência ou ficarmos isolados em casa como forma de bem-querer sobre o outro. A fim de que estejamos realmente bem, nossa mente deve estar tranquila.

Manter uma rotina fixa, com o estabelecimento de tarefas diárias a cumprir é o ponto inicial para se atravessar a quarentena de forma saudável. Permanecem as obrigações, (re)aparecem os cuidados diários para com a casa, a família, a alimentação, a saúde, o corpo e a mente.

Boa alimentação, pausas para contemplar a beleza da vida e da natureza, hidratação constante do organismo, pesquisa para checagem da veracidade das informações, não replicação de Fake News, confiança e paciência por meio da fé são atitudes desviam o foco da situação, contribuem para amenizar possíveis efeitos resultantes do isolamento.

A centralidade do corpo e da mente, através da quarentena, resulta na proteção e no espalhar de cuidados de forma altruísta, demonstrando a resiliência humana e seu amor ao próximo. O período é convidativo à reflexão: a evolução vem por meio do desenvolvimento pessoal e este impacta o todo de forma incisiva. Trabalhar a mente, encarando o cenário com prudência, observando os sentimentos, as ações e os anseios representa a tomada de consciência do ser humano neste momento.

Investir em viver o momento real, explorando a própria verdade e adaptando o entorno, podem ser auxílio no tocante à sensação de segurança necessária para se dar seguimento à jornada. Observa-se a necessidade interna de uso do tempo para o contato consigo mesmo, para a percepção de si, olhando para o íntimo do ser, fazendo uma reflexão acerca da vida.

De início, essa conduta pode trazer apreensão, mas é fundamental para o autodesenvolvimento. Sabemos, desde Aristóteles que somos seres sociais, então, é natural que se sinta angústia pelo isolamento. E, segundo a teoria da Sociometria, do famoso psicólogo Jacob Levy Moreno, os processos de ação e interação regem a existência humana. Então, como encarar o distanciamento?

Encontro, espontaneidade e criatividade. Os três conceitos que figuram o tripé para os estudos de Moreno são o pontapé inicial. 1. Encontro: a tecnologia nos auxilia com relação ao encontro, que significa interação. Podemos enviar mensagens: escrita, falada ou em formato de vídeo; telefonar por áudio ou vídeo; utilizar as redes sociais… nossa mensagem tem condição de chegar ao destinatário, não importa a região onde ele esteja. 2. Espontaneidade: a representação de si mesmo, mediante reflexão proporcionada pela quarentena nos eleva, promovendo conhecimento sobre nossos desejos e maneiras de estar no mundo. Este é um momento mais introspectivo, de explorar nosso interior. Exercício físico e meditação auxiliam de forma direta nesse processo. 3. Criatividade: descobrir e realizar o novo. Estamos diante de um universo aberto, cheio de possibilidades de mudanças e crescimentos. Cada ser, em sua unicidade, é capaz de criar a partir daquilo que se apresenta à frente.

Configurando a identidade social, a teoria moreniana nos impulsiona à percepção do mundo com base no olhar para dentro, com calma e atenção. Perante a fenomenologia existencial, portanto, vislumbram caminhos para mantermos uma mente sã num corpo são frente à vulnerabilidade de incertezas que nos rondam e configuram o mundo moderno.