Os primeiros meios que eu arrumei de me locomover foram a pé e de bicicleta, pelo bairro. Depois, com o tempo, veio o ônibus. Aí vai chegando a vida adulta, vamos estudando, arrumando emprego, recebendo uma ajudinha de “pai”trocínio e pronto, compramos “o carro”. Daí pra frente, como trocar o carro por um helicóptero parece um pouco mais complicado, a escala evolutiva nos manda ir trocando de carro, sempre para um melhor, com mais badulaques e tal.

A imagem acima é de Valdinei Calvento (igualvoce.wordpress.com).

Pois sabe que eu estou regredindo? Depois do carro, resolvi comprar uma moto e fiquei feliz da vida. Econômica, um modelo menos poluente, reduz nosso tempo de viagem, por mais que eu me esforce pra ser um piloto responsável. Depois da moto, investi numa magrela de novo! Dentro da escala evolutiva do mercado e da lógica do homo consumericus, é como se eu saísse do estágio do Neandertal, chegasse ao homo erectussapiens e começasse de novo a encolher!

Mas esse raciocínio é um erro, pois, por mais que eu tenha voltado à bicicleta (para ir trabalhar, inclusive – mas quero falar isso em voz baixa, morrendo de medo de que a preguiça me morda a jugular), eu continuo detentor da experiência de motorista, motociclista e, agora, ciclista novamente. Eu não deixei de saber como o motorista e o motociclista enxergam o espaço público. E essas formas de ver a rua, as pessoas, os outros e o espaço (a priori) de todos têm me dado importantes lições de ética.

Tento explicar.

Quando eu era apenas motorista, tinha dificuldades de entender por que diabos algumas ruas prescreviam velocidade máxima de ridículos 40 km/h. Quando eu era apenas motorista, xingava – calma lá, eu sempre xinguei apenas em pensamentos – motociclistas que ficavam passando no meio dos carros, naquelas longas filas de congestionamento, preocupado que algum maluco arrancasse meu espelho (até agora isso nunca me aconteceu), engrossando o coro do preconceito de classe contra os motoboys.

Quando passei para a motocicleta, a percepção do mundo transitável se alterou consideravelmente; você se sente mais na rua, mais exposto, menos encapsulado. Passa a perceber como ninguém o quanto as ruas da sua cidade são ruins e o quanto muitos motoristas de carro ignoram solenemente motociclistas, cortando-lhes a frente, saindo de vagas de estacionamento como se a motocicleta fosse como o avião da Mulher Maravilha, invisível.

E agora, como ciclista? Bem, como ciclista, comecei a perceber por que algumas vias prescrevem “ridículos” 40 km/h. Entendi isso porque é irritante querer atravessar uma rua e ver um automóvel ou motocicleta vindo a 60, 80 km/h (alguns pegam até 190!). Também como ciclista, vi o quanto posso atrapalhar o trânsito, entendi por que se deve andar na mesma mão dos carros, embora o senso comum sempre me fizesse pensar que a contramão fosse mais segura. Além dos três elementos (carro, moto, bike), também é preciso ainda pensar no pedestre e suas lógicas…

E o que isso tem a ver com ética? É que a ética está intimamente ligada à convivência (viver com), à confiança (fiar, tecer com), ao companheirismo (cum panis, dividir o pão com), à negação da violência (que pode ser física, mas que também diz respeito a qualquer tipo de ruptura das relações de convivência, confiança e companheirismo ditas acima).

Pense em qual lógica você acha mais razoável: a)- por meio do cuidado com o outro, vamos respeitar a fragilidade do pedestre, do ciclista, do motociclista, pois são eles os mais vulneráveis a eventuais acidentes; ou b)- eu sou mais forte, tenho uma pick-up que mal cabe na vaga de estacionamento da rua e não estou nem aí, quem for mais frágil que se cuide, que saia da frente, os incomodados que se retirem.

Repito: tenho no meu “currículo” o papel de motorista, de motociclista, de ciclista. Ao mesmo tempo em que critico posturas, também visto a carapuça e faço um mea culpa. Só queria pensar sobre isso, sobre as lógicas que imperam e o quanto me comovo (me movo com) com qualquer cena de respeito no trânsito (um sinalzinho de luz dando passagem, um motorista que espera o pedestre terminar de atravessar a rua mesmo quando o sinal abre, essas coisas todas).

Claro, precisamos ter muito cuidado ao colocamos rótulos genéricos, do tipo “os motoristas são assim”, “os motociclistas são assado” (quem nunca ouviu um “odeio motoqueiro”?), “os ciclistas são desse jeito”. Não dá pra colocar todo mundo num rótulo só. Acho, no entanto, que existem certas lógicas que comandam tendências de comportamento.

E acho também que dá para, aos poucos, ir mudando essas lógicas.

A imagem é do cartunista Guabiras (guabiras.blogspot.com)

Assim, vivendo esse pequeno exemplo de experiência da diversidade, tenho conseguido pensar sobre a vida e o mundo do comportamento humano, contrastando os meus interesses individuais como os interesses individuais do outro e ainda com os interesses coletivos. Isso se consegue estando aberto para entender um jeito de ver o mundo diferente do seu. Podemos experimentar essa ampliação do modo de ver no próprio dia-a-dia, ou também buscar isso na arte, nos livros. Sempre que leio um romance, conscientemente ou não, estou buscando entrar na lógica de uma subjetividade diferente da minha, ampliando formas de entender a resolução de conflitos, aprendendo a pensar com as pessoas/personagens, e fazer esses pensamentos atritarem com minha percepção de mundo, fazendo-me refletir sobre aquilo que eu refuto, aquilo que eu aceito, aquilo que, enfim, move o meu pensamento.

Egocêntrico, a meu ver, é aquele que tem uma visão limitada das coisas e considera como verdadeira apenas a sua experiência mais imediata da vida, sem saber que essa experiência é sempre e inevitavelmente parcial.

Que que você acha? Compartilhe aqui seu jeito de ver as coisas.

Aquele abraço

Nilton Cezar Tridapalli