Olha que curioso: você já ouviu falar em Claude-Henri de Rouvroy, o Conde de Saint-Simon? Pois é, eu já havia escutado esse nome em algumas leituras, mas agora o carinha (que passou por esse mundo entre 1760 e 1825) me chamou a atenção. Li sobre ele num livro do sociólogo português Boaventura de Sousa Santos, Para um novo senso comum: a ciência, o direito e a política na transição paradigmática.

Mas por que ele me chamou a atenção? Ultimamente, tenho jogado algumas ideias aqui sobre o espaço público e a mobilidade urbana. Aí o Boaventura de Sousa Santos diz que o Conde de Saint-Simon idealizou a primeira Câmara dos Comuns, denominada Câmara da Invenção. Dá uma olhada na constituição dessa câmara e no seu principal objetivo:

“… seria formada por 300 membros assim distribuídos: 200 engenheiros civis, 50 poetas ou outros inventores literários, 25 pintores, 15 escultores e arquitetos e 10 músicos. Esta câmara ficaria incumbida de apresentar projetos públicos, o mais importante dos quais seria aquilo a que hoje chamamos infraestruturas físicas”.

Isso foi escrito no século XIX. Mas, cá pra nós, dá pra tirar para o presente algumas ideias mirabolantes, não dá?

Não tenho absolutamente nada contra engenheiros (e o conde também não tinha, pois colocou 200 na sua câmara), mas imaginemos nós se os nossos espaços públicos fossem organizados também por artistas literários, visuais, musicais? Com a profusão de profissões hoje, poderíamos ainda colocar botânicos, paisagistas, informáticos, agrônomos etc etc. E ainda poderia haver espaço para casais apaixonados, ciclistas, motociclistas. Claro que estou esquecendo um monte de gente, mas os exemplos já servem para aquilo que quero dizer. Já imaginou os espaços públicos sendo pensados pelas várias pessoas que realmente utilizam esses espaços?

Dei um destaque à palavra “realmente” porque os encarregados de pensar o espaço público – e muitos de nós, a reboque – geralmente usam os serviços privados! Planos de saúde, escola para os filhos, shopping centers, condomínios fechados, transporte privado e por aí vai.

Por falar em público e privado… o contraste é obsceno. A foto é em São Paulo.

Não sei, talvez fosse uma bagunça só, mas gostaria de experimentar esse modelo. E fiquei viajando na maion… quer dizer, na imaginação, projetando grandes ruas e praças arborizadas com árvores frondosas. Os nossos belos ipês, por exemplo, roxos e amarelos intercalados, com ciclovias eficientes e seus bicicletários, espaços de caminhada, bancos confortáveis para paradas estratégicas e contemplativas, espaços de leitura, internet sem fio, murais com grandes obras artísticas, numa ampliação do nosso projeto Poética do Espaço (graffiti, azulejo, fotografia, pintura, esculturas…), música ao vivo, feira livre para venda de produtos naturais, parque público de diversões (infantil e adulto), tudo isso e mais o que a imaginação for capaz de projetar em grandes vias públicas poderiam estar presentes!

Sei que não podemos olhar para a Europa com um olhar irrestritamente apaixonado (confesso que a tentação é grande), mas já tive a oportunidade de ver um pouco disso em grandes cidades do Velho Continente. Paris, Madri e Barcelona são algumas cidades que ficaram marcadas em minhas retinas fatigadas, pois possuem um pouco disso, amplas avenidas centrais com espaços mais do que agradáveis, sem perder a utilidade.

Se você é de Curitiba, já chegou a pensar na Linha Verde? Essa foi a minha imediata relação; em pouco tempo, aquilo que antes era a BR-116 virará um enorme centro comercial, com empresas de tecnologia e edifícios altos invadindo o espaço. De avenidas largas e amplas possibilidades para a diversidade de manifestações como as que apontei acima, será que se lembraram de consultar botânicos, paisagistas, informáticos, agrônomos, casais apaixonados, ciclistas, motociclistas para ajudar a construir o espaço que seria de todos?

O espaço público, coletivo e democrático pode nos fazer sonhar com algo mais do que objetos de consumo individual e de status.

Que tal? Muita loucura? O Mário Quintana dizia que a imaginação é a memória que enlouqueceu. A “loucura” instala o caos e o caos não é necessariamente bagunça desordenada. Ele apenas questiona a ordem estabelecida e propõe ordens novas, diferentes, do tamanho de nossa imaginação. Não é à toa que adoro citar essa frase de Gaston Bachelard:

“O espaço chama a ação e, antes da ação a imaginação trabalha. Ela ceifa e lavra”.

Notem que não estou falando apenas desse lugar como se fosse um oásis no deserto da cidade. Estou falando de algo integrado à paisagem diária, que serve para contemplar, agradável, mas também útil, lugar de passagem cotidiana de pessoas que vão para o trabalho, escola etc.

A proposta é a seguinte: o que mais você colocaria nesse nosso hipotético espaço público? Eu coloquei “belos ipês – roxos e amarelos intercalados! –, com ciclovias eficientes e seus bicicletários, espaços de caminhada, bancos confortáveis para paradas estratégicas e contemplativas, espaços de leitura, internet sem fio, murais com grandes obras artísticas, numa ampliação do nosso projeto Poética do Espaço (graffiti, azulejo, fotografia, pintura, esculturas…), música ao vivo, feira livre para venda de produtos naturais, parque público de diversões (infantil e adulto)”…

Ah, me lembrei agora: quadras para esportes, pista de skate, muros de escalada artificial, barzinho, bancas de revista e jornal, biblioteca. Que mais?

Agorajudaí: traga mais coisas pra esse nosso espaço. É só escrever aí nos comentários e eu vou colocando aqui, na página principal, as sugestões que chegarem.

Abraço.

OBS 1: fuçando, fuçando, achei um blog espanhol que fala muito a respeito. O nome do blog já é significativo: visitehttp://ecosistemaurbano.org/.

OBS 2: se tiver uns minutinhos, não deixe de assistir ao vídeo abaixo. Muito interessante, divertido, esclarecedor e esperançoso!