Quando o corpo do meu canário foi encontrado, morto (suponho de velhice) no chão da gaiola, descobri-lhe anotações, feitas a próprio punho. De início, não lhes reservei especial atenção, uma vez que, transtornado pela fonte de alegria que jorrava de seu canto e que se me secava, procurei refutar objetos pessoais ou quaisquer que, de forma menos ou mais direta, me lembrassem sua presença viva. Desse modo, agi rápido, ajudado pela paralisia do pensamento (por vezes atrapalhado e cheio de sutilezas indesejáveis para ações como aquela), e fui me desfazendo de tudo que pudesse trazer, para a sala de visitas da memória, lembranças dele. Seu corpo estava em decúbito dorsal, nu, sem organdi azul que lhe cobrisse as penas. Havia alpiste espalhado pelo fundo da gaiola, transbordando-a e atingindo o chão da varanda do apartamento onde eu moro. A água estava intacta e cristalina, a não ser por dois grãos de alpiste que foram parar dentro do pote, fugidos da fúria que, assim se presume, antecedeu sua morte. Seu corpo escondia, embaixo da asa – se esquerda ou direita não lembro – uma sutil mancha vermelha, ou, se se preferir colorir de uma cor mais poética o vermelho, escarlate. Supus um assalto (gatunos infestam o bairro), mas a gaiola tinha apenas uma de suas tantas varetas de aço arrebentada e apontando para dentro, de modo que nenhuma pata felina ferina teria condições de atravessar tão exíguo espaço. Assim, desfiz-me da gaiola, dos alpistes guardados na despensa e de todos os acessórios que davam ao canário uma vida digna, sem muitos confortos, é verdade, mas digna. A única coisa que me sobrou de sua existência foram aquelas páginas escritas por ele, em letrinha miúda, como talvez já se possa supor, e que, no calor do frio da morte, preferi ignorar. Inverossímil, dirão todos. Como ignorar escritos de um ente querido morto misteriosamente? E eu, em verdade, em verdade lhes direi: ainda existem muitos professores de melancolia que podem esclarecer o que é tão claro como água suja. Tomem aulas! e verão o quanto a vida é inverossímil. Oh, requintes sem estilo! Não li, de fato não li o que ele deixou escrito. Apenas fito as páginas e tento adivinhá-las, trazendo-as para o meu conforto. Esse é o fato, assim seja o amém. Fiquei durante muito tempo procurando afastar suas lembranças e, quando achamos que o tempo realmente só navega em caminho de ida, aí ele nos surpreende com sua face voltada para o atrás. Achei que estava melhor, que ele já havia se transformado numa plácida e discreta estrela a fazer companhia à Ursa Maior. Mais que nada. Mas que nada! Ele não foi habitar em céus. Ele mora aqui dentro da minha cabeça e, numa hora dessas, deve estar pensando que voltou ao ovo de onde saiu. Com o bico incisivo, parece estar querendo romper as cascas que o envolvem. Dores mútuas.

O suspense criado aqui por conta das palavras deixadas pelo canário não é estratégia para irritar leitor. Não diga isso. Estará pensando bobagens. Claro, a miséria alheia é quase sempre agradável para olhos alheios. O sofrimento de um ser abstrato distante não comove, de modo que se deve estar pensando: “anda logo com as palavras do canário”, sem a mais mínima consideração pela dor. “Ah”, pensarão muitos, “chega de lero-lero, você é um narrador, nem existe.” E eu, em mentira de mentira, lhes direi: “não é verdade”. Também sofro o grave frio dos medos e, diante das páginas fechadas de seus escritos, ainda prefiro o temor do desconhecimento ao temor de conhecer algo que possa fazer com que eu não me reconheça.

Procurando solução pacífica, a fim de acabar com mistérios e, por outro lado, não me expor a uma temível saraivada de dores, faço o que em seguida se lê: vou dormir, vou tomar um ar lá fora ou qualquer coisa que me afaste de vocês e deixo, para quem quiser ver, abertas as páginas que ele – se desatinado ou em sã consciência não sei – legou à minha miséria. Adeus. Quem terminar por último, feche o caderninho e o deixe, sutilmente, debaixo do abajur apagado.

Nilton Cezar Tridapalli