Antes de qualquer coisa: o que você pensa quando vê isso?

Pensamento 1: quando a família de Michael Jackson resolveu sortear ingressos pela internet para o velório do cantor, houve, nos primeiros 90 minutos, uma média de 120 mil acessos por segundo (sim, por segundo! 500 milhões de acessos depois de uma hora e meia).

130 mil pessoas no total se acotovelaram no estádio do Real Madrid para ver dois chutadores de bola – um brasileiro, outro português – que, juntos, foram contratados por cerca de 500 milhões de reais.

Ao mesmo tempo, nem preciso falar dos 4 milhões de desempregados brasileiros, da Aids que assola a África, das doenças simples como diarreia e malária que matam pelo mundo, do contingente gigantesco de pessoas que vivem abaixo da linha da miséria…

“Liquidação termina hoje”, diz a placa, ladeada por fiéis veneradores. Isso me lembrou do poema do José Paulo Paes, quando compara os círculos do inferno de Dante ao Shopping Center: “Pelos teus círculos/ vagamos sem rumo/ nós almas penadas/ do mundo do consumo”

Pensamento 2: costumo dizer que tenho certas desconfianças em relação à arte contemporânea. Não sou especialista no assunto e até por isso mesmo desconfio dela, pois não acredito numa arte feita apenas para especialistas no assunto. Acredito sim em refinamento do olhar, acredito sim que o problema nem sempre está na obra, mas pode estar em nós mesmos, seres embotados pela amplitude rasa das imagens que nos atingem diariamente. Mas arte hiperespecializada é, pra mim, um desserviço.

Só que, ao conhecer melhor um ou outro artista, vi que não podemos colocar toda a arte contemporânea num mesmo balaio de gatos pardos. O Vinícius, noutro dia, apresentou aqui a obra do brasileiro Vik Muniz, que vem fazendo a cabeça tanto da crítica quanto do público (inclusive do público de nosso blog, que fez dezenas de comentários sobre a obra dele). Hoje, quero apresentar outro artista contemporâneo que, acredito, pode causar admiração e reflexão em todos nós. Trata-se do britânico Banksy, autor de todas as imagens que aparecem nesse post de hoje.

Costurando pensamentos:

Sinceramente, não é por preguiça, mas por respeito à inteligência do leitor: basta observar bem as fotos das obras e acredito que você próprio já terá costurado esses meus pensamentos isolados, inclusive acrescentando novos e mais ricos.

Uma das obras feitas no muro da segregação que separa a Palestina de Israel, simulando um buraco e uma paisagem diferente, literal e metaforicamente falando…

Ainda assim, queria apenas deixar registrado: a partir do pensamento 1, no qual ficamos desconfortáveis com as contradições desse mundo que alardeia um acidente aéreo com 100 mortos e ignora solenemente inúmeras chacinas que ocorrem em várias partes do mundo (com milhares de mortos), perceba como Banksy também trabalha com as contradições, transformando-as em material artístico, reflexivo, mesmo sendo claramente um ativista! Não sou do time que acha que a arte, pra ser arte, precisa esbravejar jargões políticos; mas é que uma arte demasiadamente asséptica, sem sal, comprazendo-se apenas da sua forma fôrma, ou de sensações individuais e sentimentos íntimos que não transcendem para o coletivo é, pra mim, massagenzinha no ego de egocêntricos patológicos, afetados.

Foto de abertura da página inicial do artista. Se você está curtindo o trabalho de Banksy, não deixe de visitar http://www.banksy.co.uk/. Lá, no canto inferior esquerdo, clique em “watch trailer”.

Agora, quando vejo Banksy colocando o policial num cavalinho de criança, um casal abastado fazendo turismo e sendo carregado por uma criança, entre outros exemplos, é evidente a crítica social, mas há também um lirismo ladeando a brutalidade, criando um atrito entre a alegria e tristeza, rudeza e ternura e muitas outras antíteses que, em suma, são o suprassumo da própria arte.

Por falar em ternura…

… e por falar em brutalidade.

A arte é assunto espinhoso quando a gente a discute academicamente. Mas, assim, como apreciador que procura algo que toque e faça pensar, acho que a obra desse Banksy tem muito a mostrar.

Uma pausa necessária, pois, por mais que queira parecer, ninguém é de ferro.

Se você gostou, experimente digitar Banksy no Google Imagens ou noYoutube. Aparecerão muitos resultados que ajudam você a conhecer mais sobre esse artista. Minha intenção aqui foi só fazer uma breve apresentação desse carinha misterioso (ah, veja se você consegue na internet uma foto do rosto dele… vai ser difícil). Eu mesmo estou esperando um livro que um amigo meu vai me emprestar, pra poder conhecer mais esse sujeito.

Aí vão mais umas imagens do trabalho dele:

Interessante a comparação entre o graffiti de hoje e as pinturas rupestres primitivas: formas de expressar desejos, pensamentos. Você mandaria apagar as pinturas rupestres? Por que aquele sujeito (que também é pintura, observe bem) as está apagando?

Manifestando-se novamente contra quem não vê arte na chamada “arte de rua”… Mas, calma, é tudo pintura, o sujeito pendurado na parede não vai cair de lá!

Sorria, você está sendo filmado onde menos espera… Sorria?

Uma ratazana lírica desfia acordes impressos na lata dos tantos lixos…

Reaproveitando a célebre frase de Karl Marx (“Trabalhadores de todo o mundo, uni-vos”) para fazer ironia: ao lado, um trabalhador pronto para apagar a “pichação”.

A clássica imagem associada à brutalidade policial é uma das mais carnavalizadas por Banksy…

Poderia essa ser uma reflexão sobre os sábios que nos conduzem?

Outra característica de Banksy parece ser a relação com clássicos da pintura. Acima, o famoso córrego de Monet recebe uma triste atualização, mais de acordo com os dias de hoje…

Última perguntinha: que tipo de susto você é capaz de levar ao ver a obra abaixo?

E aí? Que que achou? Deixe um comentário pra gente.

Aquele abraço.

Nilton Cezar Tridapalli