4º Simpósio de Práticas Inovadoras coloca a Educação Infantil no centro das reflexões sobre o ensinar e o aprender
O que a Educação Infantil pode ensinar aos educadores dos demais segmentos da Educação Básica? Essa foi uma das questões que orientaram o 4º Simpósio de Práticas Inovadoras do Colégio Medianeira, realizado nos dias 16 e 17 de outubro, com o tema “Traços, vozes e experiências: a Educação Infantil em foco”.
Durante os dois dias, educadores do Medianeira e de instituições parceiras participaram de momentos de reflexão, diálogo e experimentação sobre os processos de ensinar e aprender. Nesta edição, o Simpósio propôs olhar para as práticas da Educação Infantil não apenas como referências para o trabalho com crianças pequenas, mas também como possibilidades de inspiração para os demais segmentos da escola.
A proposta partiu do reconhecimento de que a escuta, a investigação, a criatividade, a participação e as múltiplas linguagens, presentes no cotidiano da Educação Infantil, podem contribuir para repensar o planejamento, a mediação pedagógica e as relações de aprendizagem em diferentes faixas etárias.
Inspirado pela pedagogia de Reggio Emilia, pelo Paradigma Pedagógico Inaciano e pelas metodologias ativas, o encontro também reforçou o compromisso da educação jesuíta com a formação integral, considerando as dimensões cognitiva, socioafetiva e espiritual-religiosa da pessoa.
“Precisamos cultivar um olhar sensível, que observa, volta a observar e se faz presente. Um olhar sempre renovado para as crianças, capaz de reconhecer a beleza de suas descobertas e de nos lembrar da sensibilidade que a profissão de educador exige”, destacou o diretor-geral do Colégio Medianeira, P. Agnaldo Barbosa Duarte, S.J.
Stela Barbieri: o desenho como forma de pensar e se relacionar com o mundo
A programação teve início na sexta-feira (16), com a palestra “O corpo do desenho na relação com o mundo”, conduzida pela artista, autora, educadora e contadora de histórias Stela Barbieri.
Ao longo do encontro, Stela convidou os participantes a ampliar a compreensão sobre o desenho, apresentando-o como uma linguagem que ultrapassa o papel e envolve o corpo, os gestos, os materiais, a observação e as relações com o mundo.
Nessa perspectiva, desenhar não significa apenas representar algo ou produzir uma imagem. É também uma maneira de investigar, elaborar ideias, experimentar possibilidades e construir conhecimentos.
A educadora destacou a importância do brincar nos processos de aprendizagem e da participação integral das crianças nas experiências que vivenciam. Ao abordar a relação entre corpo e atenção, provocou uma reflexão sobre práticas educativas que valorizam a presença e a investigação, em vez de associar a aprendizagem ao controle do corpo e dos movimentos.
Outro ponto da palestra foi a necessidade de reconhecer os conhecimentos produzidos em diferentes contextos. Stela abordou as relações entre tecnologias ancestrais e contemporâneas, a valorização dos saberes locais e a importância de considerar a arte, a cultura e as experiências pessoais na constituição de cada educador.
Suas reflexões também convidaram os participantes a pensar sobre o lugar da infância na educação. As perguntas formuladas pelas crianças, muitas vezes relacionadas à existência, à natureza e às relações humanas, dialogam com questões presentes em diferentes campos do conhecimento.
A palestra abriu, assim, um percurso formativo que teria continuidade no sábado, quando os participantes foram convidados a experimentar, na prática, algumas das possibilidades discutidas.
Práticas e ateliês
No sábado (17), a programação foi dedicada às Práticas & Ateliês, conduzidas por educadores do Colégio Medianeira e pelos convidados Stela Barbieri, Fernando Vilela e Silvia Pandini.
Organizadas a partir de experiências e investigações pedagógicas, as propostas convidaram os participantes a explorar materiais, formular perguntas, criar, observar e compartilhar reflexões. A intenção foi proporcionar aos educadores a oportunidade de vivenciar processos semelhantes àqueles que integram as experiências de aprendizagem das crianças.
As atividades contemplaram diferentes linguagens e campos do conhecimento, evidenciando como situações cotidianas, materiais e ambientes podem se transformar em contextos de investigação.
No ateliê “Alquimia da pele: identidade, cores e medidas”, conduzido pelas educadoras Ana Paula Timoteo, Larissa Veiga e Micherlane Martins, a produção de diferentes tonalidades de pele articulou Arte, Matemática e Ciências, além de promover reflexões sobre identidade, pertencimento e diversidade. Já em “Culinária na Educação Infantil: um ingrediente para múltiplas aprendizagens”, as educadoras Brunna Hyara e Bruna Kovalik apresentaram o preparo de alimentos como uma possibilidade de explorar medidas, transformações, escolhas, autonomia e relações sociais.
A relação entre natureza e investigação esteve presente em propostas como “Garden Lab: do olhar ao cultivo”, conduzida pelas educadoras Anne Louise Alonso e Rayssa Silveira, que explorou elementos de um ecossistema por meio de observações e registros bilíngues, e “Sementes: um percurso investigativo sobre natureza e ancestralidade”, desenvolvido pelas educadoras Fabíola Pereira, Mayara Pizzatto e Patrícia Hassunuma, que aproximou ciência, arte, alimentação e memória cultural.
Outros ateliês convidaram os participantes a olhar de novas maneiras para materiais presentes no cotidiano escolar. Em “Tantos papéis para o papel”, a educadora convidada Silvia Pandini explorou características e possibilidades de transformação desse material. Já “Tramas, entrelaçamentos e outras formas de pensar com as mãos”, conduzido pelas educadoras Anna Grisolia, Vanessa Benato e Larissa Ribeiro, propôs investigações com fios, tecidos e diferentes formas de entrelaçamento.
O desenho também ganhou espaço em “Gramática da linha: gesto, matéria e superfície”, conduzido pela educadora Mariana Vargas, e em “O corpo do desenho na relação com o mundo”, com a convidada Stela Barbieri. Ambos foram voltados à exploração das relações entre corpo, movimento, materiais e expressão.
Múltiplas linguagens
A programação também abordou possibilidades de aprendizagem por meio da literatura, da música, do movimento e da expressão dramática.
Em “Quando a literatura escapa das páginas e passa a habitar o corpo, o espaço e os sentidos”, conduzido pelas educadoras Camila Virgilio, Jéssica Lançone e Marcele Martins, os participantes foram convidados a explorar diferentes formas de vivenciar uma narrativa literária. Já “Som, símbolo e corpo: escuta, percussão corporal e musicogramas na Educação Infantil”, desenvolvido pelas educadoras Mariana Valentim e Rachel Ramos, apresentou possibilidades de articulação entre música, movimento, representação e outras áreas do conhecimento.
O ateliê “Onde o corpo sente, brinca e expressa, a aprendizagem acontece”, conduzido pelo educador Junior Obata, trabalhou jogos dramáticos, expressão corporal e criação de contextos pedagógicos, reconhecendo o brincar como uma forma de investigação e construção de conhecimentos.
A atenção às singularidades das crianças esteve presente em “Diferentes ritmos, múltiplas possibilidades: inclusão nos contextos lógico-matemáticos”, conduzido pelas educadoras Aline Luize Deunisio e Allicia Dal Lin, que propôs reflexões sobre a organização de experiências capazes de acolher diferentes ritmos, necessidades e formas de participação.
A dimensão espiritual-religiosa também integrou o percurso formativo. Em “Magis em ação: espiritualidade e intencionalidade pedagógica”, conduzido pelas educadoras Ana Paula Correia e Gabriele Ribeiro, os participantes refletiram sobre como os princípios da Pedagogia Inaciana podem estar presentes nas escolhas educativas, nas relações e nas experiências cotidianas.
Embora apresentassem diferentes temas e materiais, as propostas compartilhavam uma compreensão de aprendizagem que valoriza a participação, a autoria, a escuta e o papel do educador como pesquisador da própria prática.
“É graças ao trabalho que os educadores e as educadoras realizam todos os dias, com dedicação, sensibilidade e respeito aos processos de aprendizagem de cada criança e de cada jovem, que temos um projeto educativo tão bonito, significativo e reconhecido em Curitiba e na Rede Jesuíta de Educação. É esse cuidado cotidiano que ajuda nossos estudantes a se encantarem com o mundo e com a vida”, destacou o diretor acadêmico do Colégio Medianeira, Carlos Torra.
Um espaço de encontro entre instituições
Além dos educadores do Colégio Medianeira, o Simpósio recebeu representantes de instituições jesuítas e de outras escolas parceiras, ampliando as oportunidades de diálogo e intercâmbio entre diferentes contextos educativos.
Entre as instituições que integram a Rede Jesuíta estavam a Escola Nhá Chica, de Montes Claros (MG); o Colégio dos Jesuítas, de Juiz de Fora (MG); a Escola Padre Arrupe, de Teresina (PI); a Escola João Paulo II, de Feira de Santana (BA); e a Escola Padre Agostinho Castejón (EPAC), do Rio de Janeiro (RJ). O evento também contou com a participação das escolas parceiras: Projeto 21, Catavento, Parlenda, Primeira Infância e Casinha Feliz.
A presença desses profissionais contribuiu para o compartilhamento de perspectivas sobre os desafios da educação e para a reflexão coletiva sobre práticas que consideram as necessidades e as potencialidades dos estudantes em diferentes etapas da formação.
Durante o Simpósio, também foi anunciado o projeto vencedor da primeira edição do Prêmio Inaciano de Inovação: “Ateliê Corpo Vivo: investigação, robótica e modelagem científica”, das professoras Natalia Martins Guerra e Suellen Oriana Kricky. A proposta utiliza a robótica pedagógica e a programação para investigar processos fisiológicos do corpo humano, permitindo que os estudantes construam protótipos, realizem testes e aprimorem seus projetos. Para viabilizar a iniciativa, o Colégio disponibilizará R$ 10 mil para sua implementação, além de horas remuneradas para que as educadoras possam planejar e executar as atividades ao longo do ano. Como parte da premiação, cada professora também recebeu um iPad.

A Educação Infantil como inspiração para todo o Colégio
Ao colocar a Educação Infantil em foco, a quarta edição do Simpósio propôs uma reflexão que ultrapassa os limites de um segmento escolar: o que muda quando os educadores passam a observar com mais atenção os processos, as perguntas, os gestos e as diferentes formas de expressão de quem aprende?
A programação mostrou que investigar materiais, experimentar linguagens, reconhecer singularidades e valorizar a participação não são práticas restritas à primeira infância. São princípios que podem orientar experiências educativas em toda a Educação Básica.
“Quando falamos de infância, não estamos nos referindo apenas à Educação Infantil. O Estatuto da Criança e do Adolescente considera criança a pessoa de até 12 anos incompletos. A sociedade tenta encurtar a infância, adultizando as crianças. Precisamos acreditar na potência de cada criança, escutar o que ela tem a nos dizer e reconhecer que também aprendemos com ela. É nessa relação que construímos novos saberes”, destacou a orientadora pedagógica do Colégio Medianeira, Katia Sampaio.
Dessa forma, o Colégio Medianeira reafirma seu compromisso com a formação continuada dos educadores e com uma educação que reconhece a pessoa em sua integralidade, valoriza diferentes formas de aprender e se mantém aberta à investigação e à transformação das práticas pedagógicas.
O educador Fabiano Pinkner, professor de Língua Portuguesa do Ensino Médio, compartilhou sua experiência em um dos ateliês. “Foi por meio dessas atividades que consegui compreender melhor como a investigação científica está presente na Educação Infantil e como uma brincadeira, uma simples pergunta pode se transformar em uma oportunidade de construir conhecimento”, destacou.