23.03.26

Procuram-se leitores que não sabem ler

Como estratégias pedagógicas podem despertar o amor pela leitura em crianças que ainda não são alfabetizadas

Procuram-se leitores que não sabem ler

Imagine um lugar com muitas prateleiras, organização extrema e silêncio absoluto. Esse costuma ser o ambiente de uma biblioteca. Mas a pergunta que fica é: você consegue imaginar uma criança de dois anos ocupando esse espaço? Os livros possuem um ar de respeito. É preciso tomar cuidado ao folhear, não rasgar as páginas, ter mãos limpas para encostar na capa. Afinal, ele não é um brinquedo. Mas e se fosse?

Com essa pergunta em mente, a pedagoga Marcele Martins teve a ideia de “brincar de livro”. No projeto LiterArte, esse objeto deixou de ter o status de intocável, para convidar ao toque e para dar asas à imaginação de crianças da Educação Infantil no Colégio Medianeira, desde o primeiro ano de vida. O objetivo é estreitar a relação dos pequenos com o livro, a literatura, as histórias e a livre imaginação. 

As vivências da pedagoga vão além da contação de história, Marcele faz desse momento uma imersão. As páginas do livro são o pontapé inicial para a observação de pássaros, seus sons, seus ninhos e suas diferentes espécies. Se o personagem principal da história toma o chá das cinco, as crianças também vão experimentar, degustar, sentir o cheiro do ramo de hortelã e descobrir, junto com os colegas, novas sensações.  

Assim que Théo de 2 anos vê a professora, ele pergunta: “Vai ter cházinho? Eu gosto de chá, do lobo e do livro”. Apesar de ser uma fala simples, ela demonstra a capacidade dele de associar elementos da história com as vivências sensoriais. “É um forte indicativo do desenvolvimento da sua rede de significados e associações”, comenta Marcele.

Van Gogh e o Passarinho Téo

Foi brincando que a turma do Infantil 2 – Nível 1, conheceu Van Gogh. Talvez não saibam identificar A Noite Estrelada, mas eles sabem que o pintor era amigo de um passarinho. O livro Van Gogh e o Passarinho Téo de Mércia Maria Leitão e Neide Duarte está entre os favoritos da turma. Todos sabem identificar a história pela capa e alcançam o exemplar facilmente na prateleira baixa, adaptada para a turma de quase leitores. E o “quase” está aqui como mera formalidade, porque há leitura. Não das palavras como signos, mas da interpretação das ilustrações, da lembrança de quem já escutou a história contada pela professora e pode recontá-la. Afinal, como diria Paulo Freire: a leitura do mundo precede a leitura da palavra.

Brunna Hyara Figueiredo, educadora regente da turma, explica que, na Educação Infantil do Colégio Medianeira, a aprendizagem parte do interesse das crianças. “Na turma, o encantamento pelos passarinhos era algo natural. Ao passear pelos bosques, elas corriam atrás das aves e imitavam seus sons. A partir disso, exploramos essa temática, percorrendo todos os campos de experiências e suas diversas linguagens”, relembra a professora.

Dizer que o livro Van Gogh e o Passarinho Téo é o preferido da turma significa reconhecer que essas páginas já foram revisitadas dezenas de vezes. “As crianças aprendem por repetição e observação: acompanham como a professora manuseia o livro, prestam atenção aos personagens, imitam gestos e sons e, quando se sentem confiantes, passam a folhear o exemplar e recriar as ações que mais as encantaram. Muitas vezes, reproduzem até a entonação da voz que utilizei. Assim, a repetição, quando faz sentido para a criança, torna-se um elemento essencial no processo de aprendizagem”, afirma.

Na turma, não é preciso anunciar o momento da contação de histórias. O simples gesto de pegar um livro e se sentar no tapete já é o suficiente para que as crianças se aproximem, com o olhar atento ao que será contado. Como os pequenos leitores observam cada detalhe, a leitura precisa ser carregada de emoção, entonação e, como já mencionado, repetição. “A aquisição da linguagem ocorre  quando a criança, ao ouvir repetidamente uma palavra em diferentes situações, passa a atribuir sentido a ela e aprende a utilizá-la em variados contextos”, comenta Brunna.

Em uma atividade de pintura, em que os livros não eram o foco principal, Gustavo mergulhava o pincel na tinta de beterraba e o deslizava sobre um pote de vidro, quando comentou: estou pintando igual o Van Gogh. “Em momentos como esse, percebo o quanto cada passo na educação é intenso e gratificante”, conclui a professora.

O leitor brasileiro

É de conhecimento comum que o brasileiro não está entre os leitores mais assíduos do mundo. Segundo dados da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil – 6ª edição (2024), realizada pelo Instituto Pró-Livro em parceria com a Fundação Itaú, a população lê em média 3,9 livros por ano, número menor do que nas edições anteriores da pesquisa. Em comparativo, no site World Population Review, os Estados Unidos lidera com média de 17 livros anuais, seguidos pela Índia com 16 e o Reino Unido com 15.

Em contraponto, os números apontam que nas escolas observadas pela Avaliação de Qualidade da Educação Infantil: um retrato pós-BNCC (2025), apenas 10% permitem que as crianças tenham acesso livre aos livros. E apenas 19% oferecem atividades com duas ou mais estratégias que oportunizem o protagonismo das crianças por meio do brincar, envolvendo práticas com leitura ou escrita. 

“A leitura compartilhada durante os primeiros anos de vida é importante para o desenvolvimento da futura capacidade leitora, mas não apenas isso. Também é um diferencial importante para o desenvolvimento de vocabulário, expressão, empatia e memória. Quando transformamos esse momento em uma vivência, explorando as sensorialidades, convidamos à observação e aquilo que não pode ser entendido na totalidade, pode ser imaginado, exercendo a criatividade”, afirma Marcele. 

O livro como um brinquedo

Como um objeto de uso livre, muitas vezes, o livro pode sofrer alguns danos. Marcele conta que algumas páginas se rasgam de tanto que são folheadas ou até se descolam pela curiosidade de muitas mãos que querem se aproximar ao máximo da história. Mas esses episódios não são vistos como acidentes, mas como parte de um processo natural. 

“Para as crianças bem pequenas, a experimentação não pode se limitar aos livros cartonados ou de tecido, que são mais resistentes. Precisamos ofertar títulos que tenham qualidade literária, independente do material. A criança só vai conseguir testar a intensidade da sua força se explorar diferentes materiais”, revela. 

Porém, observando as vivências do LiterArte é possível ver alguns comportamentos de quem já possui uma certa intimidade com esse objeto cheio de palavras e ilustrações. Alguns pequenos leitores se acomodam em pufes, outros abraçam os livros. Há até pose de leitor com perna cruzada, mas sem a espera de um clique fotográfico, as cenas são espontâneas. 

Os elementos que concretizam o próprio livro também são convidativos ao toque e às descobertas. “A textura das ilustrações, o tamanho do livro, o tipo de encadernação e os elementos interativos como abas e pop-ups, se integram à narrativa e ajudam a criar uma experiência enriquecedora. O trabalho do designer, refletido no tamanho da letra e na disposição do texto, também faz toda a diferença”, lembra a pedagoga. 

Marcele conta que as ações do LiterArte partem de estudo, leitura e planejamento, mas também contam com flexibilidade para ouvir as crianças e remanejar vivências quando necessário. “Alguns livros despertam mais interesse do que outros. Algumas turmas adoram histórias de passarinhos, outras ficam encantadas com o porco-espinho de Téo Quer um Abraço, da Silvana de Menezes. Como são vivências que têm as crianças como protagonistas, a opinião delas precisa ser levada em conta. Até porque o principal objetivo é que a paixão pelos livros nasça da experiência, não da imposição”,  conclui.

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