Qual é o meu tom de pele?
Projeto com crianças de três a quatro anos mostra como experiências sensoriais e representatividade ajudam a construir identidade, autoestima e respeito desde cedo
Por Ketilyn Castro de Almeida
A primeira infância é um momento central na formação da identidade dos futuros adultos. Muito antes da alfabetização, a criança já busca responder, mesmo sem palavras, a perguntas como: quem sou eu? Como sou visto pelo outro? A que grupo pertenço? Nessa fase, enquanto elabora suas primeiras hipóteses sobre o mundo e sobre si, mobiliza curiosidade, atenção e desejo de explorar. Essa combinação potente abre caminhos para a educação antirracista, e a escola assume um papel fundamental ao ampliar repertórios, promover representatividade e garantir que todas as crianças se reconheçam de forma positiva nas experiências que vivenciam.
Com referências que exploram a diversidade de tons de pele, texturas de cabelo e expressões culturais, as crianças percebem semelhanças e diferenças e desenvolvem um olhar mais sensível e ampliado. Foi com esse objetivo que três educadoras do Colégio Medianeira desenvolveram o projeto Tons de Pele com crianças de três a quatro anos. Ana Paula Gomes, Larissa Veiga e Micherlane Martins levaram para a sala de aula as fotografias da artista Angélica Dass, do projeto Humanae. A fotógrafa documenta, por meio de retratos, as verdadeiras cores da humanidade, questionando as falsas classificações como “branco”, “preto”, “amarelo” ou “vermelho”. Para isso, extrai o tom de uma pequena área do rosto de cada pessoa fotografada e o relaciona à paleta industrial Pantone, colocando em evidência contradições e estereótipos.
Na Educação Infantil do Colégio Medianeira, as imagens são projetadas nas paredes e no chão, convidando as crianças a olhar para si e para o outro. O ambiente é preparado com cuidado, com espelhos em diferentes ângulos e alturas e bonecas com diferentes características étnicas. As crianças também têm à disposição tintas em ciano, magenta e amarelo, cores-base da impressão, além do preto e do branco. “A exploração com tinta é muito significativa para os pequenos. Com a mistura de cores, eles encontram diferentes tons de marrom e bege e relacionam com sua própria tonalidade de pele, percebendo que não existe uma única cor em nosso corpo”, comenta Ana Paula.
A professora destaca que, desde o primeiro momento, as crianças se envolvem com a proposta. “Elas passam tinta nas pernas, mãos e braços, misturando cores e criando diferentes tonalidades de pele. É uma aprendizagem que passa pelo corpo e conecta a história de cada uma, permitindo perceber diferenças e semelhanças, ao mesmo tempo em que compreendem que o respeito e o amor nos unem”, afirma.
Micherlane conta que as crianças também criam suas próprias formas de nomear as cores. “Algumas dizem: eu sou cor de chocolate. Como trabalhamos as estações do ano e a passagem do tempo, uma delas se identificou com a cor das folhas de outono. Essas vivências atravessam o cotidiano da turma, nas brincadeiras, nas conversas e nas relações”, relata.
A percepção das crianças negras
A atividade é importante para todas as crianças, independentemente do tom de pele, mas as educadoras destacam que é especialmente significativo observar a reação das crianças negras. “Elas buscam semelhantes como forma de se reafirmar no mundo, especialmente porque muitas turmas são majoritariamente formadas por crianças brancas. Nessas vivências, é possível perceber o quanto se sentem acolhidas, vistas e satisfeitas ao reconhecer que existem inúmeras tonalidades de pele e que há representatividade”, comenta Larissa.
Ao longo dos anos com o projeto, as educadoras acumulam relatos que reforçam a importância da educação antirracista desde cedo. “No ano passado, a única criança negra da turma, ao ver as projeções do Humanae, foi diretamente até a imagem de um homem negro de pele retinta. Apontava, sorria, se reconhecia ali. Era um encontro com a própria imagem, com um lugar de pertencimento”, relembra. “Falar sobre educação antirracista e, de fato, criar espaços para que crianças e adolescentes pensem sobre isso é urgente em uma sociedade que ainda carrega marcas profundas do preconceito”, completa.
Para as educadoras, um dos maiores desafios do dia a dia é trabalhar com questões e falas que as crianças já trazem de suas experiências sociais. Ana Paula compartilha um momento que exemplifica esse processo. “Antes de entrar na sessão com tintas, ouvi uma criança dizer em uma roda de conversa: ‘eu sou branca, minha mãe me disse’. Em um primeiro momento não havia questionamento, mas a proposta estava na exploração. Ao usar a tinta branca no próprio braço, sem misturas, ela observou e concluiu: ‘minha mãe estava errada, eu não sou branca’. Nesse cenário a autopercepção, a experiência sensível e a investigação material operam na construção do conhecimento. A criança estava validando a sua própria observação científica, deixando de ser uma receptora passiva de informações para se tornar uma investigadora que tira as próprias conclusões a partir da evidência”, lembra.
Micherlane reforça que, nesses momentos, o educador atua como mediador sensível. “É preciso acolher as falas, a curiosidade e conduzir o diálogo com respeito, ampliando o olhar do grupo. A escola é um espaço potente de transformação social e essas experiências precisam fazer parte do cotidiano, não apenas de datas específicas”, afirma.
Isabella, hoje com cinco anos, participou do projeto há dois anos, mas ainda carrega aprendizados. A mãe e também professora, Fernanda Hillman Furlan, lembra das mudanças no comportamento da filha. “Ela passou a dizer que seu tom de pele era marrom e a comparar com o meu e o do pai. Percebeu que somos diferentes, mas que todos têm valor. Foi um processo muito cuidadoso, de construção da autoestima”, relembra.
Fernanda também destaca que a atividade reforçou valores já trabalhados em casa, como a valorização do cabelo e da própria identidade da filha. “Independentemente do tom de pele, essa construção é essencial para que a criança se reconheça e se valorize. Quando ela desenvolve autoestima e aprende a olhar para o outro com respeito, tudo se torna mais natural. Falar sobre diferenças com naturalidade faz com que o respeito seja consequência”, afirma.

Experiência sensorial contra o preconceito
Na primeira infância, aprender passa, antes de tudo, pelo corpo. É por meio do toque, das cores, das texturas e das experimentações que a criança constrói suas primeiras compreensões sobre o mundo. As experiências sensoriais, nesse contexto, não são apenas atividades lúdicas, mas caminhos fundamentais para o desenvolvimento, conectando percepção, emoção e pensamento. Ao explorar, misturar e sentir, a criança não apenas aprende, mas também se reconhece e se expressa.
“A aprendizagem passa pelo corpo. Tudo o que encanta, que mobiliza sentimentos e se conecta com experiências concretas torna-se significativo. As vivências sensoriais colocam a criança em um lugar de pesquisa e liberdade, onde ela experimenta, cria hipóteses, levanta questionamentos e se expressa não apenas pela fala, mas também pelos gestos e ações”, explica Larissa. “Nesse processo, a criança constrói sua identidade, sua forma de aprender e de se relacionar consigo mesma e com o outro.”
Ana Paula reforça essa dimensão corporal do conhecimento. “O corpo é a base da aprendizagem. O movimento, o toque e a percepção não vêm antes do pensamento, eles são o pensamento em ação. O que é vivido no corpo se transforma em memória, não apenas como informação, mas como experiência que marca o sujeito”, afirma.
Assim, experiências que envolvem o corpo e abordam a educação antirracista com afeto e escuta ativa tornam-se potentes ferramentas pedagógicas. “Ao naturalizar a diversidade desde cedo, a escola evita que o silêncio sobre a raça se transforme em preconceito. Um ambiente que valoriza as diferenças fortalece a alteridade e permite que a criança aprenda a respeitar as múltiplas formas de ser e estar no mundo”, conclui Ana Paula.
Fotos: Elis Dolinski, Wagner Roger e Ana Paula Gomes.





