20.05.26

Imersão pedagógica em Reggio Emilia

Imersão pedagógica em Reggio Emilia

No mês de maio, o Diretor Acadêmico, Carlos Henrique Torra, a coordenadora Juliana Heleno e as orientadoras da Educação Infantil e do Ensino Fundamental I, Katia Sampaio e Dâmeri Rosa, participaram de duas semanas de imersão cultural, investigativa e formativa no Centro Internacional Loris Malaguzzi, em Reggio Emilia, na Itália. Reconhecida mundialmente, a abordagem de Reggio Emilia compreende a educação como um projeto coletivo de cidade educadora, fundamentado na escuta das crianças, na valorização das múltiplas linguagens, na aprendizagem por investigação e no protagonismo infantil.

Durante a formação, os educadores participaram de estudos, visitas a escolas da infância, vivências em ateliers e diálogos com especialistas da área, aprofundando conhecimentos e buscando inspirações para o desenvolvimento de novas propostas pedagógicas voltadas à Educação Infantil e ao Ensino Fundamental I.

Além disso, a equipe acadêmica teve a oportunidade de participar de um momento formativo ao lado de Kate Middleton, Princesa de Gales, que esteve em Reggio Emilia para conhecer e estudar as abordagens educacionais desenvolvidas na região e no curso realizado. A presença da princesa reforçou a relevância internacional das experiências pedagógicas construídas na cidade italiana, reconhecidas pelo compromisso com a infância, a criatividade, a escuta e a formação integral. O Colégio Medianeira segue ampliando horizontes, fortalecendo sua proposta pedagógica e promovendo experiências formativas que inspiram novas possibilidades para a educação.

Relato de Carlos Henrique

A participação de quatro educadores do Colégio Medianeira em uma imersão formativa no Centro Internacional Loris Malaguzzi, em Reggio Emilia, na Itália, reafirma uma convicção importante do nosso Projeto Educativo: a excelência acadêmica nasce, também, da formação permanente de nossos educadores e da capacidade institucional de dialogar com experiências de referência no cenário educacional local e global.

Mais do que uma experiência internacional, esta imersão representa um movimento de abertura, escuta e aprofundamento sobre os desafios e possibilidades da educação das infâncias no século XXI. A presença, em um dos momentos da programação, da Princesa de Gales — igualmente dedicada ao estudo de iniciativas inovadoras voltadas à primeira infância — evidencia a relevância global das discussões que hoje atravessam temas como cuidado, aprendizagem, desenvolvimento humano e formação integral das crianças.

No Colégio Medianeira e na Rede Jesuíta de Educação, compreendemos que investir na formação dos educadores é investir diretamente na qualidade das experiências educativas que oferecemos às nossas crianças e famílias. Por isso, a Educação Infantil ocupa um lugar estratégico, de atenção constante e de permanente projetação institucional. Temos o desejo e a responsabilidade de continuar sendo referência em excelência acadêmica e humana na Educação Infantil no cenário curitibano, articulando inovação pedagógica, profundidade humana, rigor acadêmico e compromisso com a formação integral.

Nesse contexto, o diálogo entre a abordagem de Reggio Emilia e a Pedagogia Inaciana tem se mostrado especialmente potente. Há aproximações muito fecundas entre essas perspectivas, sobretudo na valorização do protagonismo infantil, da documentação pedagógica, da escuta sensível, da investigação, da construção coletiva do conhecimento e da compreensão da educação como experiência profundamente humana e relacional. São elementos que fortalecem nosso horizonte educativo e reafirmam a centralidade da criança como sujeito de possibilidades, linguagens e descobertas.

Experiências como esta também ajudam o Colégio a ampliar repertórios, consolidar práticas e projetar caminhos para o futuro da educação. Ao retornarem dessas vivências, nossos educadores trazem não apenas novos conhecimentos, mas novas perguntas, novos olhares e novas possibilidades de construção pedagógica. É assim que seguimos fortalecendo uma cultura educativa comprometida com a inovação, com a reflexão crítica e com a formação de sujeitos conscientes, criativos, solidários e academicamente bem formados.

Relato de Juliana Heleno

A experiência imersiva em Reggio Emilia, na Itália, tem muitas camadas, mas a principal é perceber que, mais do que um projeto pedagógico, eles têm um projeto de cidade educadora. É uma longa história na educação e com um ponto comum muito importante: eles creem nas crianças como um todo. Creem na criatividade, na construtividade, no potencial reflexivo e interpretativo. As crianças são vistas como sujeitos de direito e como protagonistas das suas histórias e aprendizagens. Eles utilizam as aprendizagens das crianças como objeto de estudo, para compreender e sempre se surpreender com os caminhos cognitivos que elas percorrem. O ambiente das creches e escolas de infância é preparado para provocar as crianças, para tecer autonomias, e a escuta é ponto central das relações: a escuta entre crianças, a escuta entre adultos e crianças e a escuta entre adultos, que projetam e reprojetam em busca de experiências significativas. Ao falar em escuta entre adultos, não posso deixar de mencionar a relação com as famílias, que para eles são parte essencial da vida das escolas e creches, participando de conselhos de gestão, da manutenção e até da execução dos projetos.

Pelas experiências pedagógicas compartilhadas conosco, foi possível perceber um amplo espaço para que as crianças se expressem em diferentes linguagens, desenvolvendo uma forma de pensar muito própria. Outro ponto que chama a atenção é a qualidade dos professores, porque além do embasamento teórico, foi possível perceber paixão e orgulho pelo que fazem.

Foi uma alegria para mim perceber muitas proximidades entre aquilo que já fazemos e o que vimos em Reggio Emilia, sempre considerando as diferenças de contexto. Nós temos o PEC e o Projeto do Colégio nos trazendo a centralidade dos estudantes, estamos há alguns anos dedicados a estudos e práticas focadas nas aprendizagens dos estudantes, inclusive temos o Mapa de Aprendizagens, que é um norteador importante e potente. Temos, especialmente na Educação Infantil (mas não somente), trabalhos com projetos que partem da escuta ativa das crianças, nos quais elas são protagonistas; temos o foco na experiência como pilar central da aprendizagem das crianças; por fim, temos um grupo de professores comprometido, que estuda muito e que se engaja diariamente no processo de formação integral das crianças.

Creio que a experiência nesta formação nos ajudará não a abrir novas frentes, mas sim a aprofundar as que já temos. Em minha opinião, podemos ter três focos principais: estudos sobre as aprendizagens e desenvolvimento das crianças, a partir dos processos e produções destas; organização e reorganização dos espaços e contextos; e a relação com as famílias e a comunidade local.

Finalizo afirmando que a abordagem de Reggio Emilia só é possível em Reggio Emilia, pois é uma experiência educativa situada histórica e geograficamente. O principal ponto que podemos compartilhar é a defesa das infâncias, e é possível sim inspirar-nos para enriquecer ainda mais nossa experiência com a formação integral, sempre dentro do contexto em que estamos situados.

Relato de Katia Sampaio e Dâmeri Rosa

Participar da imersão pedagógica promovida pela Reggio Children foi viver uma experiência profundamente humana, estética e transformadora. Ao longo de uma semana de estudos, reflexões, visitas e ateliês, estivemos em contato com uma cultura da infância construída sobre a escuta, as relações e a confiança nas potencialidades das crianças.

Logo no início da formação, fomos convidados a conhecer a origem dessa proposta educativa, nascida no período pós-guerra, quando famílias da comunidade de Vila Cella, muitas mulheres estiveram à frente e decidiram construir uma escola para as crianças como gesto de esperança e reconstrução social. Com recursos arrecadados da venda de materiais deixados pela guerra, como tanques e cavalos, nasceu um projeto coletivo que mais tarde encontraria em Loris Malaguzzi um importante interlocutor e impulsionador.

Desde então, Reggio Emilia construiu uma visão de educação que reconhece a criança como sujeito competente, curiosa, potente e capaz de produzir cultura. Uma infância que pensa, cria teorias, formula perguntas, estabelece relações e aprende em diálogo com os outros, com os materiais, com os espaços e com o mundo.

Durante as palestras e visitas às creches e escolas da infância, tornou-se evidente que essa abordagem não se organiza como um método pronto ou uma sequência fixa de atividades. Trata-se de uma cultura pedagógica sustentada pela observação, pela investigação e pela documentação dos processos de aprendizagem.

Em Reggio Emilia, documentar não significa apenas registrar o que aconteceu. A documentação pedagógica é compreendida como instrumento de pesquisa, reflexão e diálogo. Ela torna visível o pensamento das crianças e também o percurso dos adultos que aprendem junto com elas. Fotografias, anotações, vídeos, falas e produções infantis transformam-se em material de escuta e interpretação coletiva.

Outro aspecto que nos marcou profundamente foi a cultura do ateliê. Mais do que um espaço destinado às artes, o ateliê é entendido como um lugar-metáfora da experimentação, das múltiplas linguagens e da construção de conhecimento. Nele, os materiais deixam de ser apenas objetos e passam a ser parceiros de pesquisa, provocando perguntas, relações e descobertas.

Ao visitar o Remida, centro de reciclagem criativa de Reggio Emilia, fomos convidados a olhar para os materiais de descarte de outra maneira. Não como resíduos sem valor, mas como elementos carregados de possibilidades poéticas, estéticas e investigativas. A experiência nos fez refletir também sobre consumo, sustentabilidade e responsabilidade coletiva.

Ao longo da imersão, outro conceito atravessou constantemente as discussões: a pedagogia da escuta. Escutar, em Reggio Emilia, não é um ato passivo. É uma postura ética de abertura ao outro. Significa reconhecer valor nas ideias das crianças, acolher diferentes pontos de vista, sustentar perguntas e construir conhecimento de forma compartilhada.

Nesse contexto, o erro, a dúvida e até a frustração também ganham outro significado. Aprender não é repetir respostas prontas, mas investigar, formular hipóteses, testar caminhos, reorganizar pensamentos e construir estratégias diante dos desafios.

As experiências vividas nas escolas revelaram crianças capazes de elaborar pensamentos complexos, dialogar, criar teorias e construir coletivamente soluções para problemas reais. Revelaram também adultos atentos, pesquisadores da infância, que observam, interpretam e planejam contextos capazes de ampliar as experiências infantis.

Ao final da semana, ficou ainda mais forte a compreensão de que educar é um ato coletivo e profundamente político. A experiência de Reggio Emilia não se sustenta apenas dentro das escolas, mas nas relações entre crianças, educadores, famílias, cidade e comunidade.

Mais do que buscar respostas prontas, voltamos dessa imersão com perguntas importantes: Como escutamos as crianças em nosso cotidiano? Que experiências estamos oferecendo? O que escolhemos tornar visível? Como sustentamos tempos de investigação, criatividade e pensamento coletivo? Além, é claro, de validar o percurso que temos trilhado ao longo dos últimos 10 anos.

Reggio Emilia não nos oferece um modelo a ser copiado. Oferece inspiração, deslocamento e responsabilidade. Convida-nos a olhar para a infância com mais delicadeza, profundidade e esperança.

A experiência vivida em Reggio Emilia também dialoga profundamente com os princípios da Pedagogia Inaciana, que orienta o projeto educativo do Colégio Medianeira. Assim como na Pedagogia Inaciana, a abordagem reggiana compreende a educação como um processo integral, atento às dimensões humanas, relacionais, éticas e sensíveis da formação. A centralidade da escuta, o cuidado com os processos, o olhar atento para cada criança em sua singularidade e a construção coletiva do conhecimento aproximam-se da ideia inaciana de formar sujeitos conscientes, compassivos, críticos e comprometidos com o mundo. Em ambos os contextos, educar ultrapassa a transmissão de conteúdos: trata-se de acompanhar percursos humanos, cultivar a curiosidade, favorecer experiências significativas e reconhecer que cada criança carrega em si potencialidades que precisam ser acolhidas, provocadas e cuidadosamente desenvolvidas.

E talvez essa tenha sido uma das maiores aprendizagens dessa experiência: compreender que educar é, antes de tudo, acreditar na potência humana desde o início da vida.

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